EUA querem o FMI 'jogando duro'
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sábado, 04 de agosto de 2001
Agência Estado<BR>De Washington 
O FMI (Fundo Monetário Internacional) começa a mostrar como pretende agir durante o governo conservador de George W. Bush. Como maiores acionistas do FMI, os EUA pressionaram o Fundo a não conceder recursos novos à Argentina e a negociar duro com a missão brasileira que passou dez dias em Washington.
O FMI acabou exigindo um sacrifício fiscal adicional do Brasil e ofereceu ao País apenas US$ 13,8 bilhões em dinheiro novo cerca de US$ 5,2 bilhões a menos do que pedira o presidente FHC. No caso da Argentina, limitou-se a antecipar de setembro para agosto o desembolso de uma parcela de US$ 1,25 bilhão já prevista no acordo fechado em dezembro.
Se dependesse do vice-diretor-gerente do Fundo, Stanley Fischer, Argentina e Brasil talvez obtivessem tratamento mais dócil. No entanto, Fischer, que tinha apoio total da administração do ex-presidente Bill Clinton, está sendo substituído por Anne Krueger, economista de Stanford afinada com a orientação de Bush para o Tesouro e para as instituições multilaterais: jogar duro com os mercados e com governos de países em desenvolvimento
Além de Krueger, Bush nomeou para o FMI o advogado Randal Quarles, especializado em negociar acordos entre governos quebrados e bancos credores. Quarles ocupará o cargo de diretor-executivo dos EUA no Fundo.
Sabatinado no Senado dos EUA na semana passada, Quarles disse que pretende fazer com que crises financeiras saiam das primeiras páginas dos jornais e sejam noticiadas nas páginas de negócios. Foi uma alusão ao fato de Bush querer estimular negociações diretas entre credores e devedores, substituindo os atuais pacotes de ajuda por acertos diretos.
Sob a gestão de Bill Clinton, a Casa Branca coordenou mais de US$ 150 bilhões em pacotes de ajuda na Ásia, na América Latina e na Rússia. As coisas agora mudaram, pode ter certeza, disse à reportagem o economista Allan Meltzer, ideólogo de Bush e presidente da comissão do Congresso norte-americano que, no ano passado, propôs a diminuição das funções do FMI e do Banco Mundial.
Os primeiros sinais de mudança durante a administração Bush já podiam ser sentidos desde abril, na primeira entrevista coletiva concedida no exterior pelo secretário do Tesouro dos EUA, o ex-executivo Paul ONeill.
Ele descreveu assim seu encontro com o ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo: Fiquei encantado ao ouvi-lo dizer, sem que ninguém perguntasse, que não necessita e que não quer mais dinheiro. É uma grande coisa ver um país e um povo entenderem as coisas que precisam ser feitas e dizer que vão fazê-las.
ONeill ingressou no governo Bush tendo como uma de suas maiores prioridades fechar as torneiras do Tesouro e diminuir o papel de instituições multilaterais como o FMI e o Banco Mundial. A filosofia do novo governo é a de que os pacotes tornam países em desenvolvimento mais lenientes e acabam dando dinheiro ao setor privado, que absorvem os recursos do FMI antes de os países quebrarem.
Com base nessa filosofia, a Casa Branca estaria esperando a Argentina quebrar e os credores privados assumirem parte do custo do calote para só depois ajudar no que for preciso. No caso brasileiro, sensibilizou-se porque o país devolveu ao Fundo a maior parte do dinheiro que sacou.
ONeill levou para o Tesouro dois personagens diretamente associados a esse pensamento. Kenneth Dam, o segundo homem no Tesouro, criticou o FMI no passado pelos pacotes de ajuda ao México, à Rússia e ao Brasil. Em 1998, num livro escrito com o ex-secretário de Estado George Shultz, argumentou que os pacotes beneficiaram os investidores mais ricos.
Outro escolhido por ONeill, John Taylor, voltou ontem da Argentina com um discurso amistoso, mas sem oferecer dinheiro novo. Professor de Stanford, como Krueger, Taylor sugeriu em 1998 a simples abolição do FMI.


