EUA iniciam nova safra de soja. Com subsídio
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terça-feira, 01 de maio de 2001
Oswaldo Petrin 
Enquanto a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) discute o fim dos subsídios, o meio-oeste americano, conhecido pelas suas condições privilegiadas para produzir grãos oleaginosos (solo fértil e logística de transporte e comercialização), prepara-se para uma nova safra de soja e milho, com incentivos do governo. Mais soja (2,9%) do que milho (-2,8), segundo as primeiras projeções de área a ser planada. Nos estados de Ohio, Illinois, Nebrasca e Indiana a neve que cobria a resteva de milho recém-colhido derreteu na semana passada e já se pode ver que a sementeira invasora emerge com vigor. É hora do preparo do solo, convencional, na maior parte, usando escarificador (70%), arado aiveca (20%) e através de plantio direto (10%).
Não há novidade no aumento da área de soja (31 milhões de ha comparados aos 30,1 milhões na última safra) para fugir dos custos do milho, mais elevados este ano pelos preços dos fertilizantes, principalmente os que derivam do petróleo.
Esta situação se configura desde fevereiro, tempo suficiente para o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) direcionar a safra de grãos.
Em 2001, o Usda reservou US$ 4 bilhões para o pagamento direto aos produtores da diferença entre os preços de mercado (cada vez mais próximos de US$ 4,00 por bushel) e o preço mínimo de garantia de US$ 5,26 por bushel.
O agricultor norte-americano sabe que vai haver um aumento de oferta, mas não se preocupa com isso, afinal é o governo que está mandando plantar mais soja e ele garante o lucro, independente do que o preço e a lei da oferta e procura reservam para a próxima colheita. Sim, o governo, independente da mudança de presidente, garante. Exatamente como fez na última safra, segundo Doug Bosworth, diretor da Associação dos Produtores do Condado de Dekalb, uma entidade que promove o debate permanente sobre tecnologia e mercado no Corn Belt - onde a produtividade média de grãos é de 165 bushel/acre e a diferença entre as menores médias de produtividade (7.000 kg/ha) e as maiores médias (acima de 8.000 kg/ha) é sempre muito pouco. Em Dekalb diz-se que quem produz 6,5 mil kg/ha está fora do mercado. A Associação - Farm Dekalb Country - está de olho nos custos de produção e a palavra de ordem, entre os produtores, é a eficiência, apesar da certeza do apoio governamental.
Exemplo desse apoio se expressa na produção de um dos membros da própria Associação. A safra de Vincent W. Faivre ilustra bem a presença governamental na comercialização. A soja, com um custo de US$ 7,14/bushel e negociada a US$ 5,00/bushel, resultou-lhe em prejuízo de US$ 2,14/bushel. O governo bancou a diferença e ainda pagou o custo de oportunidade, que é uma estimativa de renda que o agricultor poderia ter em outra atividade, empregando o equivalente em patrimônio e mão-de-obra. Faivre disse a um grupo de jornalistas brasileiros, dias atrás, que fechou a contabilidade no vermelho, ano passado: o equivalente a cerca de R$ 30 mil. Com naturalidade, ele afirma que o Tesouro americano creditou em sua conta o equivalente a cerca de R$ 100 mil. Faivre sai do vermelho e fecha a contabilidade da safra com um lucro que leva em conta custos fixos e variáveis como remuneração da terra, depreciação de equipamento e mão-de-obra familiar, além do chamado custo de oportunidade. Faivre volta a plantar nos próximos dias uma nova safra, seguindo a orientação do Usda. O preço que o mercado vai pagar pela soja interessa sim, mas, qualquer que seja ele, o fazendeiro não vai deixar de tratar corretamente o solo, por exemplo. Nos Estados Unidos a sustentabilidade e o bom manejo fazem parte da preservação dos recursos naturais.
Outro produtor, Paul Taylor, teria perdido US$ 0,81/bushel de milho, mas teve ganho (custo mais lucro de 20%) garantido pelo governo.
No custo de produção os americanos computam tudo, incluindo muitos itens do chamado custo fixo que se incluídos nos cálculos de custos no Brasil, inviabilizariam a atividade. Ha controvérsias, aqui, com relação ao item terra.
Mas, nem todas as atividades agrícolas são subsidiadas. O governo investe pesado no milho, na soja, no arroz, no algodão e na lã. Em Dekalb, a Wegetables Dalmonte, produtos em conserva, presente no mercado regional, expressa a realidade de Paul Taylor que diminuiu a área de grãos para produzir produtos de consumo direto. As hortaliças rendem 30% mais, mas têm que caminhar com suas próprias pernas pois o governo apóia mas não subsidia diretamente o produto como faz com os grãos.
Tanto suporte (eles não concordam que este apoio seja um subsídio, como na Europa) investido na soja e no milho é considerado normal pelo agricultor norte-americano, mesmo em se tratando da costa oeste - onde a conjugação de um sistema rodo-ferro-hidro-aeroviário reduzem os custos e aumentam a rentabilidade do produto. Toda a sociedade defende este suporte governamental como se fora um prêmio para quem produz alimentos e como um preço a ser pago pela sociedade para garantir o abastecimento. Os norte-americanos também partilham do conceito de que morar na cidade significa arcar com o ônus de não morar no campo. Menos de 2% da população dos EUA moram no campo e são responsáveis pelo fornecimento de comida para consumo interno e para exportação. Esse é o principal argumento para tanto subsídio. Além disso, a produção agrícola dos EUA é algo que mexe com o orgulho nacional e as pessoas prezam muito esta vocação.
O celeiro Illinois Os recursos agrícolas de Illinois estão entre os mais ricos do mundo. O solo fértil, o clima favorável, os excelentes meios de transporte, as boas oportunidades de comercialização e uma força de trabalho produtiva são alguns dos muitos recursos que permitem que Illinois seja reconhecida como fornecedor mundial de alimentos e fibras.
Entre todos os Estados, Illinois é quase sempre o primeiro colocado em produção de soja, segundo em produção de milho e terceiro na produção de suínos. Geralmente, está entre os cinco maiores Estados em receita, em arrecadação com produtos agrícolas e em número total de imóveis rurais. É considerado um dos 10 maiores Estados em número de fazendas e produção de trigo de inverno. (O jornalista viajou a convite da SLC-John Deere).


