A crise financeira internacional está provocando o retorno de políticas protecionistas pelos países desenvolvidos para compensar a perda de renda dos seus produtores rurais, segundo o chefe do Departamento de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antônio Donizeti Beraldo. Em entrevista a Agência Estado, ele destaca a aprovação em setembro, pelo Congresso dos Estados Unidos, do maior pacote de ajuda da história agrícola daquele país, envolvendo recursos da ordem de US$ 6 bilhões.
Esses recursos, de acordo com o economista da CNA, têm o objetivo de compensar os produtores norte-americanos, que enfrentam a pior crise da década, ocasionada principalmente pela retração das compras dos países do sudeste asiático. As projeções atuais apontam para uma queda de 16% na renda líquida agrícola norte-americana. O montante aprovado recentemente supera em quase 30% o até então maior pacote de ajuda aos produtores norte-americanos, de US$ 4,7 bilhões, adotado em 1988 para compensar os produtores prejudicados pela forte seca nos Estados Unidos.
A União Européia também está favorecendo seus produtores rurais, de acordo com o representante da CNA. Ele lembra que, recentemente, foi anunciado um aumento de 21% nos subsídios às exportações de trigo e que os produtores de açúcar e carne bovina também foram contemplados com maiores incentivos. Para Donizeti Beraldo, as iniciativas em andamento reforçam a tendência mundial de ampliação das políticas de subsídios às exportações agropecuárias, imposição de tarifas e cotas de importação.
‘‘Essa tendência representa um retrocesso na abertura das economias mundiais e pode ocorrer num momento em que o setor agrícola caminha para uma nova rodada de negociações de liberalização comercial no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC)’’, avalia. O chefe do departamento de comércio exterior da CNA acredita que o resultado desse quadro pode ser uma nova guerra de subvenção entre Estados Unidos e União Européia, nos moldes da ocorrida na década passada.
O Brasil tem tudo a perder com essa possibilidade, pois não tem respaldo financeiro do Tesouro para entrar nessa briga, principalmente numa situação prospectiva de redução de gastos decorrente do ajuste fiscal, analisa Donizeti.
O temor do ressurgimento de uma nova guerra de subsídios levou os ministros do Grupo de Cairns a fazer, no final de setembro, uma declaração ministerial sobre subsídios às exportações. Na declaração, eles apelam à União Européia e aos Estados Unidos a resistirem firmemente, no curto prazo, às pressões que ameaçam levar a uma renovada, inevitável e prejudicial guerra de subsídios na exportação agrícola.

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