Curitiba - Os Estados Unidos largaram na frente na corrida para a produção da segunda geração de biocombustíveis. As pesquisas com diferentes tipos de biomassa para produzir o etanol celulósico, em parceria com o setor privado, estão a todo vapor no Laboratório Nacional de Energia Renovável (NREL - sigla em inglês) - instituição vinculada ao Departamento de Energia do governo norte-americano, sediado em Golden, cidade dos arredores de Denver, no Colorado. A expectativa é de que o combustível comece a ser produzido em escala comercial, em um prazo de três a cinco anos.
Os estudos estão concentrados em dois métodos de conversão de biomassa em etanol: termoquímico e bioquímico, usando como matéria-prima resíduos da atividade agrícola, bagaço de cana-de-açúcar, sorgo doce, um tipo de gramínea - conhecida nos Estados Unidos como switch grass - e resíduos de madeira. Segundo o NREL, o potencial de produção de biomassa chega a 1,17 bilhão de toneladas por ano - quase 80% provenientes da agricultura e o restante de recursos florestais.
De acordo com Thomas Faust, que coordena no NREL o programa ''Vinte em Dez'' - referência à meta do governo George W. Bush de redução de 20% do consumo de gasolina em 10 anos -, até agora, há seis plantas comerciais desenvolvendo pesquisas, em parceria com o Laboratório Nacional, com etanol celulósico (três termoquímicas e três bioquímicas), além de outras duas do setor privado, que estão trabalhando por conta própria.
Faust destacou que os investimentos em biocombustíveis devem pular dos atuais US$ 8 bilhões (destinados à produção de etanol de milho) para um volume entre US$ 24 bilhões e US$ 28 bilhões, em 2017.
''Nosso objetivo principal é fazer um combustível barato e, para isso, precisamos de insumos baratos e de alta disponibilidade'', afirmou o pesquisador do Centro Nacional de Bioenergia do NREL, John Ashworth. ''Nós desenvolvemos a pesquisa básica aplicada, mas colocamos à disposição da indústria a tecnologia necessária para que eles produzam em escala'', acrescentou. Um dos exemplos do trabalho em parceria com o setor privado é o da empresa DuPont, onde estão sendo investidos US$ 38 milhões, em um projeto de quatro anos. Segundo Ashworth, o tempo médio entre pesquisa e comercialização é de 20 a 25 anos.
Outro grande desafio é reduzir o custo de produção do litro de etanol celulósico para US$ 0,34 até 2012, tornando-o mais competitivo que o etanol de milho, cujo custo de produção é US$ 0,52 o litro. Na projeção do custo de produção do etanol derivado de celulose não estão contabilizados custos de transporte e margem de lucro das distribuidoras.
A primeira planta comercial a produzir etanol celulósico nos Estados Unidos deverá ser a da empresa Range Fuels, que está instalada em Broomfield, no Colorado. A empresa assinou contrato com o Departamento de Energia dos Estados Unidos, no valor de US$ 76 milhões. Em 2008, a empresa deve começar a produzir 20 milhões de galões de etanol.
A brasileira Helena Blum, que está há 29 anos no NREL e, hoje, trabalha com o intercâmbio de pesquisadores, ponderou que o consumo do etanol nos Estados Unidos deverá ficar restrito às áreas produtoras. Segundo ela, a Califórnia, por exemplo, não quer o etanol por causa da emissão de gases, como nitrogênio, que podem piorar a qualidade do ar. A pesquisadora destaca, no entanto, que enquanto a gasolina emite 384,7 gramas de monóxido de carbono por milha (responsável pelo efeito estufa), a emissão da queima do etanol celulósico é de -24,3 gramas/milha. O número negativo, explicou, é que além de não emitir monóxido, as plantações das culturas que servirão como biomassa sequestram carbono.
Helena apontou a inviabilidade de se produzir etanol em estados de clima desértico como Nebraska e Colorado. A restrição, explicou ela, seria por conta da disponibilidade de água. Para produzir um galão de etanol seriam necessários 785 galões de água, considerando os gastos no plantio da matéria-prima. Mesmo com as restrições, a pesquisadora defende a maior participação dos biocombustíveis na matriz energética mundial. ''Os biocombustíveis como commodity ajudariam a estabelecer o preço do petróleo em um patamar aceitável'', ponderou.
A jornalista viajou a Denver a convite do Centro de Imprensa Estrangeira (Foreign Press Center) do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

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