Etanol ameaça produção de açúcar
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Fabíola Gomes<br>Agência Estado 
São Paulo- Em artigo da Barron, publicação semanal para investidores do Wall Street Journal, os analistas alertam para o risco de dependência do açúcar do Brasil, maior produtor e exportador mundial da commodity
A cana-de-açúcar produzida no Brasil está estimulando a produção de etanol no País e em outros países e elevando rapidamente a capacidade de refino no Oriente Médio e no Norte da África. É como uma torneira que nunca é desliga, argumentou Alan Wood, diretor de gerenciamento da corretora internacional, com sede em Londres, Czarnikow Sugar. Não há outro real fornecedor de açúcar, afirma Wood.
As vendas brasileiras respondem por 50% da comercialização global de açúcar. Outros grandes exportadores são Tailândia e Austrália, cujas vendas somadas correspondem a 18%.
O artigo destaca que, à medida que o mundo se torna altamente dependente do Brasil, permanece sempre a possibilidade de quebra da oferta, seja pelas mudanças climáticas ou pela demanda interna, que pode puxar uma alta dos preços. A indústria brasileira poderia exercer influência semelhante ao estilo Opec, afirma o presidente da divisão para açúcar da Cargill Internacional, Jonathan Drake, referindo-se à organização que reúne os exportadores de petróleo.
A Organização Internacional de Açúcar (ISO, na sigla em inglês) estima a produção brasileira de demerara em 2006/07 em 32,4 milhões de t., dentro da produção global de 160,2 milhões de t., o que representaria um recorde mundial.
Atualmente, a indústria brasileira conta com um bom superávit, mas os analistas receiam que este nível pode se reduzir se a demanda interna aumentar. Entretanto, a consultoria F.O. Licht lembra que a queda dos preços do açúcar em 2007/08 poderá fazer o Brasil produzir mais álcool em detrimento do açúcar. Na projeção da ISO, a safra 2006/07 deve ter um superávit de 7,2 milhões de t., tendência que deve persistir na próxima safra, em parte por causa do Brasil.
Com o bom volume ofertado, os mercados futuros de Londres e Nova York seguem pressionados, depois das máximas atingidas no ano passado por conta da demanda para etanol. Ainda assim, o preço do açúcar segue firme e as iniciativas para produção etanol também. O relatório da ISO aponta um crescimento da demanda em torno de 2,15% ao ano. Isso porque as políticas de incentivo ao uso de biocombustíveis, tanto na Europa como nos EUA, impulsionam a demanda e o etanol permanece como uma fonte de energia alternativa.
Outro fator importante é a ampliação da capacidade de refino de açúcar nos países do norte da África e do Oriente Médio, que deverá sustentar a demanda por matéria-prima. Os países dessas regiões estão atraindo investimentos estrangeiros de grandes companhias, como a Cargill International, Tate & Lyle e ED&F Man, depois da reforma no programa de açúcar da União Européia (UE), que deve transformar o bloco em grande importador da commodity.
Até o momento, o Brasil mantém o mercado bem abastecido, mas os analistas alertam que as usinas precisam manter a cautela ao depender do gigante agrícola. O economista Julio Borges, da consultoria JOB Economia observa, exportar não é uma questão de sobrevivência, mas uma opção para a indústria brasileira de açúcar.


