Estudo questiona tabela brasileira de alimentos
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sexta-feira, 27 de julho de 2007
Márcia Vieira<br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - A primeira desconfiança do cardiologista carioca Carlos Scherr sobre o teor de colesterol nos produtos consumidos no Brasil veio da aparência do leite desnatado. O daqui tem uma consistência completamente diferente do consumido nos Estados Unidos. Tendo como base a tabela americana de alimentos, Scherr questionou se a tabela usada por médicos e nutricionistas brasileiros não estaria equivocada.
Durante dois anos ele fez uma pesquisa inédita no País. Analisou, do ponto de vista da quantidade de colesterol e gorduras, alimentos vendidos nos supermercados brasileiros. Descobriu mais do que diferenças entre tabelas. Reabilitou algumas comidas e destruiu mitos.
O pernil, por exemplo, vetado em qualquer dieta de controle do colesterol, não é tão nocivo assim. Quando grelhado, sem gordura, ele tem menos colesterol do que o contrafilé grelhado com gordura. Margarina é melhor do que manteiga, mas apenas se ela for pobre em gorduras trans. Leite desnatado e semidesnatado não faz a menor diferença. Salsicha de frango é igualzinho à salsicha tipo hot dog. E a linguiça calabresa, tão apreciada pelos brasileiros e tão condenada pelos médicos, é muito melhor, em termos de colesterol, do que a salsicha tipo hot dog. Basta fazê-la grelhada e não frita. A salsicha de peru é a mais pobre em colesterol.
Algumas empresas vendem, mais caro, leite enriquecido com ômega 3, um santo remédio para doenças coronarianas. Só que para conseguir um consumo eficiente da substância, seria preciso tomar cerca de quatro litros por dia. E aí, o colesterol atingiria índices altíssimos.
''A desinformação em saúde de um modo geral é muito grande no Brasil. As pessoas ficam iludidas. Acreditam em coisas que não são verdadeiras. Toda hora é divulgado um estudo, sem comprovação científica, que confunde as pessoas. Uma hora, o ovo é ruim. Outra hora é bom. Portanto, se a gente consegue dar informações precisas, a adesão a uma vida mais saudável vai ser maior. É uma questão de saúde pública'', diz Scherr, que durante 10 anos dirigiu o Hospital de Cardiologia de Laranjeiras, ligado ao Ministério da Saúde, e hoje comanda o Instituto Estadual de Cardiologia Aloisio de Castro, do governo do Rio de Janeiro.
Tabela correta - As estatísticas da Organização Mundial de Saúde mostram que a aterosclerose coronariana, um tipo de arteriosclerose, é a causa de mortalidade líder no mundo e no Brasil representa 34% de todos os óbitos. São 300 mil vítimas por ano ou 820 por dia. O colesterol é o vilão neste quadro. Por isso controlar a alimentação é fundamental.
O problema, segundo Scherr, é que o Brasil não dispunha até agora de uma tabela correta dos alimentos. ''Usamos aqui análises feitas nos alimentos vendidos nos EUA. O gado lá é alimentado de forma diferente daqui. O frango é criado de forma diferente também. Isso muda tudo.'' A tabela mais usada no País é a da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), adaptada de uma tabela de 2001 do Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos EUA.
Na comparação entre o estudo de Scherr e a tabela em uso hoje há diferenças expressivas. É o caso do leite desnatado. Na análise do cardiologista carioca, em 100 ml foram encontrados 2,9 mg de colesterol. Na tabela americana, 5 mg. Esses números mudam os cardápios preparados por nutricionistas.
Segundo a American Heart Association, para uma dieta de 1.800 calorias diárias, pode-se consumir 300 mg de colesterol. O ovo, tão mal falado, também pode entrar no cardápio. Mas com moderação. ''Um ovo tem em média 200 mg de colesterol. Então sobram 100 mg para consumir naquele dia. Não é para se entupir de ovo, mas também não é para deixar de comer.'' E não faz a menor diferença comprar o ovo caipira ou o normal, mais barato. Os dois têm a mesma quantidade de colesterol, de acordo com o médico.


