A desconcentração industrial das últimas décadas, sobretudo das regiões metropolitanas do Rio e São Paulo, não significa que o centro-sul esteja ‘‘perdendo’’ indústrias para o Nordeste. Ao contrário do que diz o sendo comum, as atividades industriais mais modernas e de maior potencial de expansão apenas se irradiaram para cidades médias, e os programas do governo que objetivam a integração e a desconcentração econômica do País tendem a reforçar o processo, advertiu ontem o pesquisador Clélio Campolina Diniz, diretor do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Clélio Campolina Diniz.
‘‘O movimento de desconcentração industrial relativa das áreas metropolitanas do Rio e São Paulo, a partir da segunda metade da década de 60, numa primeira fase, beneficiou a maioria dos estados e regiões do País, mas o núcleo duro da indústria, os setores de material elétrico, eletrônico, metal-mecânica, material de transporte e química, parece estar sendo retido na macrorregião que vai do centro de Minas Gerais ao nordeste do Rio Grande do Sul’’, destacou ele ao apresentar seu trabalho ‘‘A Nova Geografia Econômica do Brasil: Condicionantes e Implicações’’, logo após a exposição do secretário de Planejamento e Investimentos Estratégicos do Ministério do Planejamento, José Paulo Silveira, sobre o Programa de Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento, no 2º Fórum Nacional.
‘‘Após o pico da concentração, em 1970, houve uma reconcentração macro-espacial industrial, com o crescimento de uma rede de cidades de porte médio em torno dos centros principais, que os projetos dos Eixos e o Plano Plurianual correm o risco de acentuar, por alguns vícios, como o viés primário exportador e a excessiva ênfase na vinculação das regiões produtoras aos portos’’, frisou Diniz. ‘‘Além disso, a competição entre os projetos e regiões e o próprio poder político poderão resultar na viabilização daqueles inseridos em regiões de maior potencial de crescimento, a exemplo do rodo-anel de São Paulo, reforçando a concentração.’’
Diniz observou que o movimento de desconcentração industrial relativa das áreas metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo, a partir da segunda metade dos anos 60, foi o fato de maior destaque da geografia econômica do País nas últimas décadas. A participação do Rio na indústria nacional caiu de 16% para 8%, entre 1970 e 1999, enquanto a de São Paulo encolheu de 44% para 21% – mudanças que explicam a drástica queda no emprego formal, particularmente na indústria, destas regiões metropolitanas.
No entanto, o que o pesquisador chama de ‘‘núcleo duro da indústria’’ parece manter-se num novo polígono industrial, devido aos setores que o compõem possuírem fortes interrelações. Assim, criam redes ou teias produtivas, que reforçam a aglomeração. ‘‘Além disso, estas indústrias se beneficiam dos melhores fatores locacionais da Região Centro-Sul, como infra-estrutura, mercado, mercado de trabalho, sistema acadêmico-universitário e de pesquisa e integração produtiva.
Em função desta tendência, Diniz identifica treze espaços econômicos médios com significativo potencial de expansão industrial, dos quais apenas dois, Salvador e Fortaleza, estão no Nordeste; um no Centro-Oeste (Goiânia-Anápolis), e os outros dez na Região Centro-Sul (Caixas-Gramado-Canela-Porto Alegre; litoral catarinense e Vale do Ítajaí: Curitiba; Londrina-Apucarana-Maringá; Vale do Paraíba paulista/fluminense; Campinas ampliada; São José do Rio Preto-Ribeirão Preto; Sul de Minas; Belo Horizonte e Uberaba-Uberlândia).
Apesar desta tendência, observa o professor da UFMG, um conjunto de indústrias leves, predominantemente têxtil, vestuário e calçados, vêm sendo transferidas para os estados nordestinos, atraídas por mão-de-obra barata, incentivos fiscais e algumas matérias primas. ‘‘Embora não tenham força e peso para alterar o padrão regional da indústria, elas são importantes para o desenvolvimento econômico do Nordeste’’, sublinha Diniz.

mockup