Estrangeiros invadem construção pesada
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de julho de 1998
Agência Estado 
O investidor estrangeiro chegou a um dos setores mais fechados da economia brasileira: a construção pesada. Levantamento inédito do Fórum Nacional da Construção Pesada mostra que 20% das empresas do setor já negociaram algum tipo de parceria com construtoras ou operadoras de infra-estrutura de outros países. O maior número de parcerias envolve empresas argentinas, espanholas e norte-americanas e as áreas que despertam maior interesse são energia elétrica, telecomunicações, saneamento básico e transportes, principalmente concessões de rodovias, informa Paulo Godoy, coordenador do Fórum.
A pesquisa foi feita com 150 entre as principais empresas de construção pesada e engenharia do País. Deste total, 35% já foram procuradas por companhias de fora do Brasil interessadas em investir ou participar de projetos de engenharia e construção locais e 30 das 150 já estão fecharam negócios com multinacionais das área de infra-estrutura. Mas este resultado, que reflete que 20% do setor já está associado com um parceiro externo, é um tendência que pode ser extrapolada para um universo de 1000 empresas de construção, argumenta Godoy. Apenas 10 projetos envolvendo parceiros estrangeiros representam investimentos de US$ 5,6 bilhões.
A volta dos investimentos em infra-estrutura e a absurda deficiência dos serviços públicos explicam o interesse pelo setor de construção pesada. Estimativas das associações empresariais apontam que estão em execução projetos de R$ 60 bilhões no período 1997-1999 em sete setores de infra-estrutura, excluindo telecomunicações. Para o período 2000-2003, os programas somam mais US$ 154 bilhões.
A grandiosidade dos investimentos previstos se explicam pelos déficits, diz Godoy. Existem 4 milhões de domicílios sem iluminação, apenas 40% das residências possuem rede coletora de esgoto, a falta de moradias ultrapassa 5 milhões, as estradas pavimentadas não chegam a 150 mil quilômetros (no pequeno Japão são 790 mil), a rede ferroviária possui 22 mil quilômetros
malconservados ante 200 mil nos Estados Unidos e 40 mil na Inglaterra. O nível da infra-estrutura brasileira fica muito aquém dos países europeus e dos Estados Unidos, diz Carlos Namur, diretor da Construtora Norberto Odebrecht (CNO). No futuro, para atender à demanda, o Brasil vai precisar da energia de uma Itaipu por ano, alerta.
O setor de construção é o mais fechado à participação estrangeira. De acordo com a publicação Melhores e Maiores da revista Exame, o capital nacional dominou 97% das vendas das maiores empresas do setor em 1997 - o maior índice entre os 20 setores analisados pela revista. Em 1996, essa presença era de 100%.
Para Godoy, o início de participação estrangeira no setor indica a proximidade de uma guerra. A abertura da infra-estrutura para a participação privada e os altos volumes de investimentos previstos tornam o mercado brasileiro atraente não apenas para as empresas brasileiras que operam no setor, mas também para construtoras estrangeiras. A competição vai aumentar muito, diz ele, prevendo um processo intenso de fusões e aquisições, envolvendo pequenas e médias empresas locais e empresas internacionais.
Uma das causas, avalia, é que investidores externos estão vindo para o Brasil disputar as áreas de telefonia, energia elétrica e saneamento, entre outras. A tendência destes investidores é atrair, para o Brasil, seus fornecedores em outras partes do mundo, incluindo área de construção e energia. Para as construtoras estrangeiras o mercado brasileiro é desconhecido, por isso tendem a iniciar suas atividades no Brasil por meio de parceriais com empresas locais. Depois que elas dominarem o mercado podem atuar sozinhas, por isso as construtoras brasileiras precisam se tornar, cada vez mais, competitivas. Do governo, diz, o setor só quer taxas de juros competitivas com o mercado internacional.


