O investidor estrangeiro chegou a um dos setores mais fechados da economia brasileira: a construção pesada. Levantamento inédito do Fórum Nacional da Construção Pesada mostra que 20% das empresas do setor já negociaram algum tipo de parceria com construtoras ou operadoras de infra-estrutura de outros países. O maior número de parcerias envolve empresas argentinas, espanholas e norte-americanas e as áreas que despertam maior interesse são energia elétrica, telecomunicações, saneamento básico e transportes, principalmente concessões de rodovias, informa Paulo Godoy, coordenador do Fórum.
A pesquisa foi feita com 150 entre as principais empresas de construção pesada e engenharia do País. Deste total, 35% já foram procuradas por companhias de fora do Brasil interessadas em investir ou participar de projetos de engenharia e construção locais e 30 das 150 já estão fecharam negócios com multinacionais das área de infra-estrutura. ‘‘Mas este resultado, que reflete que 20% do setor já está associado com um parceiro externo, é um tendência que pode ser extrapolada para um universo de 1000 empresas de construção’’, argumenta Godoy. Apenas 10 projetos envolvendo parceiros estrangeiros representam investimentos de US$ 5,6 bilhões.
A volta dos investimentos em infra-estrutura e a absurda deficiência dos serviços públicos explicam o interesse pelo setor de construção pesada. Estimativas das associações empresariais apontam que estão em execução projetos de R$ 60 bilhões no período 1997-1999 em sete setores de infra-estrutura, excluindo telecomunicações. Para o período 2000-2003, os programas somam mais US$ 154 bilhões.
A grandiosidade dos investimentos previstos se explicam pelos déficits, diz Godoy. Existem 4 milhões de domicílios sem iluminação, apenas 40% das residências possuem rede coletora de esgoto, a falta de moradias ultrapassa 5 milhões, as estradas pavimentadas não chegam a 150 mil quilômetros (no pequeno Japão são 790 mil), a rede ferroviária possui 22 mil quilômetros
malconservados ante 200 mil nos Estados Unidos e 40 mil na Inglaterra. ‘‘O nível da infra-estrutura brasileira fica muito aquém dos países europeus e dos Estados Unidos’’, diz Carlos Namur, diretor da Construtora Norberto Odebrecht (CNO). ‘‘No futuro, para atender à demanda, o Brasil vai precisar da energia de uma Itaipu por ano’’, alerta.
O setor de construção é o mais fechado à participação estrangeira. De acordo com a publicação ‘‘Melhores e Maiores’’ da revista ‘‘Exame’’, o capital nacional dominou 97% das vendas das maiores empresas do setor em 1997 - o maior índice entre os 20 setores analisados pela revista. Em 1996, essa presença era de 100%.
Para Godoy, o início de participação estrangeira no setor indica a proximidade de uma ‘‘guerra’’. A abertura da infra-estrutura para a participação privada e os altos volumes de investimentos previstos tornam o mercado brasileiro atraente não apenas para as empresas brasileiras que operam no setor, mas também para construtoras estrangeiras. ‘‘A competição vai aumentar muito’’, diz ele, prevendo um processo intenso de fusões e aquisições, envolvendo pequenas e médias empresas locais e empresas internacionais.
Uma das causas, avalia, é que investidores externos estão vindo para o Brasil disputar as áreas de telefonia, energia elétrica e saneamento, entre outras. A tendência destes investidores é atrair, para o Brasil, seus fornecedores em outras partes do mundo, incluindo área de construção e energia. Para as construtoras estrangeiras o mercado brasileiro é desconhecido, por isso tendem a iniciar suas atividades no Brasil por meio de parceriais com empresas locais. ‘‘Depois que elas dominarem o mercado podem atuar sozinhas, por isso as construtoras brasileiras precisam se tornar, cada vez mais, competitivas.’’ Do governo, diz, o setor só quer taxas de juros competitivas com o mercado internacional.

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