Washington - Depois das agências de risco, ontem foi a vez de o secretário do Tesouro dos EUA, Paul O’Neill, contribuir para a deterioração dos mercados brasileiros. O’Neill usou seu estilo trivial para dizer que se opõe a um aumento do atual pacote de ajuda do FMI ao Brasil. ‘‘Jogar dinheiro dos contribuintes norte-americanos em cima das incertezas políticas no Brasil não parece ser [uma medida] muito brilhante’’, disse, em entrevista à agência de notícias Bloomberg. ‘‘A situação lá é guiada por política, não por condições econômicas.’’ O’Neill referia-se a rumores de que o Brasil poderia pedir mais recursos para desfazer dúvidas quanto à capacidade de o governo e de empresas privadas do país pagarem suas dívidas.
Para alguns investidores, a declaração de O’Neill, tido como admirador da equipe econômica brasileira, sugere uma mudança no tratamento dispensado pelo Tesouro dos EUA para o país. Suas palavras assemelham-se às que usou em agosto de 2001 para fechar os cofres do FMI à administração De La Rúa enquanto a economia argentina se dissolvia.
Na época, ele disse: ‘‘Estamos trabalhando para encontrar uma Argentina sustentável, não uma Argentina que continue a consumir dinheiro dos carpinteiros e encanadores norte-americanos que ganham US$ 50 mil por ano e se perguntam que diabos estamos fazendo com seu dinheiro’’.
A única - e substancial - diferença entre as duas situações é que o governo brasileiro não está buscando mais recursos no Fundo, segundo informou ontem o presidente do BC, Armínio Fraga. Indagado pela Folha de S.Paulo se a frase de O’Neill representa uma mudança de tratamento dos EUA para o Brasil, Bob Nichols, porta-voz do Tesouro, disse: ‘‘Não estou autorizado a ampliar nem a reduzir o significado das palavras do secretário’’. Embora os recursos do FMI não venham somente de encanadores norte-americanos - mas também de juros pagos por países emergentes em programas de ajuste -, os EUA são de fato os maiores acionistas da instituição e orientam suas políticas.
Horas depois das declarações de O’Neill (e também por outras razões), o dólar comercial batia seu recorde histórico desde a implantação do Plano Real (1994), fechando a R$ 2,84 para venda.

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