Espisódio do leite serve de alerta para outros produtos
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terça-feira, 13 de novembro de 2007
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba - A adulteração do leite longa vida com a adição de soda cáustica e água oxigenada pode não significar riscos para a saúde da população, mas o episódio, segundo o diretor do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Renato S. Maluf, deve servir de exemplo para que seja feita uma revisão sobre a maneira como os alimentos vêm sendo produzidos.
''É preciso pegar esse episódio para rever o modo como se processam os alimentos. O que estamos assistindo são variações de um sistema que produz em grande escala. Fala-se tanto em qualidade, mas na verdade o produto nem é tanto de qualidade, envolve muito mais conservantes e aditivos'', diz ele, ressaltando que a adulteração do leite é consequência do mesmo ''sistema de associação produtivista'' que gerou o episódio da ''vaca louca'', ou seja, que prioriza a produção em larga escala em detrimento da qualidade do produto.
Maluf lembra, ainda, que o Brasil é um dos poucos países do mundo onde o leite longa-vida é consumido diariamente, apesar de envolver uma estrutura bem mais custosa do que a produção do popular leite de saquinho. ''É mais embalagem, aditivos, conservantes. Já o leite de saquinho obriga a termos sistemas de distribuição mais próximos, o que aumenta as possibilidades de trabalho com o alimento e de qualidade'', diz.
Para ele, o Brasil dispõe de legislação, mas ainda carece de um sistema de fiscalização constante que verifique não apenas se as regras estão sendo cumpridas, mas também questione o padrão dos alimentos produzidos. Ele acredita que o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), cuja criação foi aprovada no ano passado pelo Congresso Nacional, poderá ajudar nesse sentido. A criação do Sisan foi sancionada pelo presidente e aguarda, agora, regulamentação.
Por meio do novo sistema, o poder público e as organizações da sociedade civil deverão implementar políticas e ações destinadas a assegurar o direito da população à alimentação. Entre suas atribuições, caberá ao Sisan gerenciar os programas governamentais já existentes, como o Bolsa-Família, Programa de Aquisição de Alimentos, Alimentação Escolar, e criar outros que forem necessários. De autoria do poder Executivo, projeto foi elaborado por um grupo de trabalho do Consea, órgão que assessora a Presidência da República.
O diretor do Consea esteve ontem em Curitiba para participar de um debate sobre o asunto, promovido pelo Consea-PR e o curso de Nutrição da Unibrasil. Maluf enumerou quatro conquistas recentes na luta contra a fome: a recolocação do tema na agenda nacional e internacional pelo presidente Lula; a criação de programas governamentais, como o Bolsa Família e o Programa de aquisição de Alimentos (PAA) e expansão de outros, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e Alimentação Escolar; a melhoria dos indicadores da pobreza e da saúde; e a aprovação da Lei Orgânica de Segurança Nacional, em 2006, que prevê a criação do Sisan.
O desafio para o futuro, avaliou, é manter o tema segurança alimentar na agenda política. ''Para manter é preciso trabalhar no campo da pobreza e na direção da alimentação adequada e saudável''. Entre os temas a serem discutidos, citou a produção de agrocombustíveis, mais especificamnente do etanol. ''Não podemos ser hipócritas. É uma questão a ser enfrentada. A produção dos biocombustíveis exige o destino de muita área. Para caber todo mundo, tem que ser com muita regulação estatal'', completou.


