O que você faria se recebesse uma bela herança em vida de seu pai? Investiria em imóveis? Compraria uma casa na praia? Faria uma viagem pelo mundo? Pois o médico Nobuaqui Hasegawa achou que o mais natural a fazer quando recebeu o dinheiro da família era construir um hospital e ajudar pessoas. Com um sonho na cabeça, espírito empreendedor e um feeling impressionante para gestão, Hasegawa inaugurou em Londrina, há exatos 20 anos, o Hoftalon - Hospital de Olhos, um dos principais hospitais especializados em oftalmologia do Sul do País.
Atendendo praticamente 100% dos seus pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o hospital localizado na rua Souza Naves, região central, impressiona pela estrutura física, a tecnologia de ponta e o profissionalismo de todo o corpo clínico e de funcionários. O hospital, por exemplo, faz com que Londrina não tenha fila para transplantes de córnea, sendo que no ano passado realizou simplesmente 80,7 mil consultas e 11,1 mil procedimentos cirúrgicos, mais do que qualquer hospital da cidade.
Nobuaqui Hasegawa, hoje com 65 anos, viveu no sítio até os 18 anos. Até os 15, não conhecia luz elétrica e quando resolveu fazer medicina em Curitiba, abraçou a profissão com toda a sua força. ''Acho que nasci para ser médico. Quando meu pai resolveu dividir a herança entre mim e meus irmãos, achei que construir o hospital era uma forma de estender a minha missão nesta profissão. Pela nossa pirâmide social, a maioria das pessoas que necessitam de atendimento são as pessoas carentes, por isso nossa ações são voltadas para elas'', comenta o oftalmologista, que já completou quatro décadas de medicina.
Nascimento
O Hoftalon nasceu tímido, com apenas nove funcionários e poucas consultas por mês. Seis anos depois, em 1998, Hasegawa já trabalhava com 35 funcionários e percebeu que para poder continuar atendendo pelo SUS e exercendo a boa prática da medicina teria que melhorar a gestão do hospital. Com a ajuda de um consultor, adequou um programa de qualidade baseado no modelo de gestão ISO (International Organization for Standartization) para a área da saúde. ''Para atender a população, percebi que precisaríamos nos tornar gestores administrativos e financeiros. Isso foi fundamental para continuarmos o trabalho'', ressalta ele.
Em 2004, Hasegawa conquistou o reconhecimento da residência médica em sua instituição pelo Ministério da Educação (MEC). Mas 2005 foi um ano crucial para o médico e sua criação. Com as deficiências de pagamento pelo SUS e o volume de pacientes aumentando cada vez mais, o oftalmologista resolveu transformar a sua entidade privada numa instituição sem fins lucrativos de caráter filantrópico. ''Desta forma, conseguimos alguns benefícios tributários e o Hoftalon vai continuar funcionando além da minha existência'', relata.
Crescimento
Com o crescimento no número de pacientes, a ampliação era fundamental. O salto agora foi maior e o dinheiro veio da herança da sua mulher Ana Regina, que, segundo o médico, sempre foi a favor do hospital, com a condição de que ela trabalhasse com o marido. O sogro de Hasegawa entrou com o valor de R$ 600 mil e algo em torno de R$ 500 mil foi financiado pelo Banco Regional de Desenvolvimento (BRDE). ''Vendi mais um carro e outros bens para fazer a reforma. O hospital saltou de três para sete salas de cirurgia. Aumentamos o número de leitos e a parte administrativa. Aqui, o rico e o pobre têm o mesmo tratamento'', relata ele.
Hoje, a grande maioria dos oftalmologistas de Londrina atua no Hoftalon, confiando no trabalho de Hasegawa e na estrutura que o hospital oferece. Nos últimos dois anos a entidade investiu por volta de R$ 2,5 milhões em aparelhos de ponta e o maior objetivo do hospital é conquistar até o final deste ano a certificação da Organização Nacional de Acreditação (ONA), a top em certificação de qualidade em serviços de saúde.
Relembrando sua infância e o céu ''cheio de estrelas'' que gostava de apreciar no sítio, o oftalmologista se considera até hoje um sonhador. ''Não tem coisa mais sem sentido do que a vida. Uns se apegam a dinheiro, outros a poder, que também é tudo muito vazio. Resolvi apenas dar um sentido ético a minha vida, e mesmo que pareça utópico, estou tentando melhorar o mundo ajudando estas pessoas''.

Imagem ilustrativa da imagem Espírito empreendedor e visão de solidariedade
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