Esperança de avicultores de Carambeí está na China
Com paralisação de até cinco meses da planta da BRF na cidade, setor vê peste que afetou 30% da suinocultura chinesa como chance de ganhar mercado e reduzir tempo parado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de abril de 2019
Com paralisação de até cinco meses da planta da BRF na cidade, setor vê peste que afetou 30% da suinocultura chinesa como chance de ganhar mercado e reduzir tempo parado
Fabio Galiotto - Grupo Folha 

O aumento da demanda chinesa por proteína animal depois de enfrentar problemas sanitários é a esperança de produtores e trabalhadores da região de Carambeí para reduzir os até cinco meses de paralisação anunciados pela BRF, para o frigorífico de frangos da cidade nos Campos Gerais. A suspensão começa em 27 de maio e preocupa os cerca de 400 avicultores integrados e os 1,6 mil funcionários da planta.
De acordo com nota da empresa, “a decisão reforça a estratégia já anunciada de manter os estoques em níveis adequados para a operação da companhia, ao mesmo tempo em que priorizará gestão da oferta”. Contudo, fontes ligadas ao setor consideram que pesou na decisão o fato de até 90% das vendas da unidade serem de frango halal, que seguem os princípios islâmicos na produção e no abate, porque as exigências têm mudado.
A Arábia Saudita promoveu em janeiro o descredenciamento de cinco plantas brasileiras, entre as quais a unidade da BRF de Lajeado (RS). A decisão atende interesses comerciais de uma das principais nações importadoras de aves brasileiras, que têm investido para ampliar a própria capacidade de produção e importar cada vez menos do Brasil, com a explicação técnica de que são necessários ajustes nas técnicas de abate.
Em comunicado ao mercado em janeiro, a BRF informou aos investidores que a planta de Lajeado operava com volume de 6,5 mil toneladas (t) ao mês para os sauditas. A expectativa era de retomar o patamar necessário de vendas ao principal importador até abril, com base nas outras oito unidades credenciadas. O frigorífico de Carambeí produzia frango halal para outras nações islâmicas, e não à Arábia Saudita. A empresa, entretanto, não deixa claro se o abatedouro paranaense foi afetado pelo embargo em Lajeado.
Assistente técnica de avicultura da Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Mariana Assolari afirma que, nesse cenário, o mal que acometeu a suinocultura chinesa contribuirá para diminuir o período de paralisação na fábrica da BRF. Segundo projeções da líder em financiamentos para o agronegócio, Rabobank, a China detém metade do rebanho mundial de carne suína e até 30% do plantel deve ser sacrificado por contaminação pela PSA (Peste Suína Africana). “Frente à expectativa sobre a China, há possibilidade de aumentar a demanda de proteína animal brasileira, tanto aves quanto suínos, nos próximos meses”, diz Assolari.
Ela explica que é preciso recuperar também os 34% do que os sauditas deixaram de comprar do Brasil em aves. “O que esperamos é que essa paralisação [em Carambeí] não dure cinco meses e que eles retomem parte da normalidade conforme o mercado se aqueça”, diz Assolari, que lembra que o baixo consumo interno e a greve dos caminhoneiros em maio de 2018 também ajudaram a elevar estoques.
Analista técnico da Ocepar (Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), Alexandre Amorim Monteiro também acredita que o Brasil terá condições de recuperar mercado. “Torcemos para que essa redução de demanda não seja permanente, mas o que conversamos é que, com a questão da China, teremos uma demanda maior por proteína animal de suínos e aves”, diz, ao ver pouco impacto nas decisões da empresa privada BRF no mercado das cooperativas.
Ainda, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, anunciou na segunda-feira (29), na abertura da Agrishow, em Ribeirão Preto, que a Índia abriu o mercado para a compra de frango brasileiro. Ela citou também a viagem que fará pela Ásia e avaliou que o "Japão está ávido por receber nossos relatórios e abrir mercados de carnes para Brasil".
Preocupação
Assolari afirma que alguns avicultores da região de Carambeí negociam rescisão do contrato de integração com a BRF e contam com apoio do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) para adaptações no sistema de produção, para migrar para a suinocultura ou para a produção de morangos. Contudo, acredita que a maioria permaneça na atividade, por meio de acordo para ressarcimento por custos fixos e investimentos. “A planta de Carambeí tem capacidade para mais de 400 mil abates de frango por dia e estimamos que voltem em 370 mil.”
Em nota, a BRF informou que a proposta de acordo coletivo para suspensão temporária dos contratos de trabalho durará até cinco meses, prazo permitido por lei, e foi negociada com sindicato e funcionários. “A companhia ressalta que todos os termos contratuais vigentes serão honrados junto aos atuais produtores da região, que estão sendo contatados desde o dia 3 de abril para tratar dos próximos passos e sanar eventuais dúvidas”, completa.



