Depois do episódio das 2,8 mil demissões na Ford, o governo terá de sair do discurso e parar de legislar no varejo, como se isso fosse solução para o desemprego. Segundo especialistas em trabalho, é tempo de ter uma política séria de emprego e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que resistiu às demissões, mostrou onde está grande parte do problema: nos impostos, que amarram o desempenho do setor produtivo. ‘‘Há uma necessidade vital e urgente de se fazer no Brasil uma reforma tributária que funcione, antes de mais nada, como política de emprego’’, afirma o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e pesquisador da Fundação Instituto dePesquisas Econômicas (Fipe), Hélio Zylberstajn.
O drama dos demitidos comoveu o Brasil. A resistência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC encantou todo o mundo. O final feliz, com a montadora suspendendo temporariamente as demissões, deu ‘‘ibope’’. Mas, segundo especialistas, nenhuma empresa deixará de demitir por causa disso e nem será possível barrar cortes em massa - no máximo haverá, onde há sindicatos bem estruturados, negociação para que o corte se dê com algum nível de compensação ao empregados ou de forma mais gradual.
Na própria Ford a solução foi a abertura de um programa de demissões voluntárias - empregos que serão fechados e não mais voltarão para o cada vez mais ralo estoque de ocupações formais no Brasil. Na Volkswagen, recente acordo de redução de salários incluiu um programa de fechamento gradual de 5 mil postos, em cinco anos.
A Ford passou por intransigente - e foi - ao romper uma tradição de negociação e demitir de surpresa. Demitiu 2,8 mil numa só penada e isso pegou mal. No ano passado, contudo, o conjunto das montadoras de veículos fechou cerca de 13 mil postos de trabalho, quase quatro vezes o número de demitidos na Ford. Os dados são da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Além disso, outros milhares acabaram transferidos para empresas prestadoras de serviços e não se conhece hoje a quantas anda esse estoque alternativo de empregos.
Todos esses cortes foram feitos sem alarde, sem ocupações de fábricas, sem assembléias, sem a imprensa por perto. Para o negociador do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), Dráusio Rangel, a solução na Ford e a competente atuação sindical não vai mudar esse quadro. ‘‘O que mostra que um país está com problemas sérios na área de emprego não é o fato de uma empresa demitir, mas sim a certeza de que esse desempregado não encontrará nova colocação’’, disse. Assim, o caso na Ford, em si, não significa nada. Mas tem um simbolismo: é hora de o governo se mexer.
Até hoje, lembrou Rangel, FHC e sua equipe de ministros apresentaram apenas ‘‘pirotecnias’’ na área de trabalho: lei para suspender contratos e reduzir salários, lei para criar contrato a tempo parcial, autorização para criação do banco de horas, etc. Nenhuma medida é ruim, mas juntas elas não respondem a nem 1% do problema do desemprego.

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