Especialistas não crêem que soja transgênica prejudique mercado
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sábado, 23 de março de 2002
Guto RochaReportagem Local 
As recentes descobertas de lavouras de soja transgênica no Paraná acabaram reacendendo a polêmica em torno da liberação ou não do cultivo do grão geneticamente modificado no País. Além das dúvidas sobre os efeitos do produto no meio ambiente e no organismo humano, o debate acabou rumando para questões ligadas ao mercado.
Algumas lideranças do agronegócio acreditam que o cultivo de soja transgênica em larga escala afetaria negativamente as exportações brasileiras da oleaginosa e de carnes de frango e suíno que têm a soja como um dos principais ingredientes de suas rações.
No entanto, alguns especialistas de mercado ouvidos pela Folha afirmam que a questão vai além da liberação ou não do cultivo de soja transgênica, que é proibido no País. Para o coordenador de Agronegócio do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Mauro de Rezende Lopes, o produtor brasileiro e as cooperativas em geral não têm o foco no cliente, ou seja, não se programam e organizam para cultivar aquilo que o comprador quer. Os produtores sempre viram o cliente como antagonista, inimigo, e a globalização mostrou isso, comentou.
Ele afirmou que o País está numa encruzilhada com a questão dos transgênicos por causa da redução de custo que a tecnologia oferece (entre 10% e 30% menor que o cultivo convencional) e por outro lado a resistência que os países importadores têm em receber o produto. Mas o problema é que não estão pagando um diferencial pela soja brasileira não transgênica, observou.
É neste ponto que Lopes chama atenção para a necessidade de se produzir o que o cliente quer. Rezende exemplificou com a experiência da Coamo, que segundo ele, conseguiu uma espécie de premiação pela soja convencional. A cooperativa adotou um posicionamento estratégico no mercado garantido o fornecimento de soja não transgênica através do rastreamento do produto, do plantio até a entrega, comentou. A Coamo foi procurada pela reportagem mas preferiu não se pronunciar sobre o assunto.
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja, Ywao Miyamoto, não acredita que o cultivo do grão transgênico irá afetar os negócios do Brasil lá fora. Isso é conversa fiada, afirmou. Na sua opinião, o País terá de readequar sua produção e fornecer o que os importadores querem. Tem espaço para todos os tipos de soja. Tem consumidor que usa a soja transgênica, outros querem a convencional e tem importador que paga mais pela soja orgânica. O que não pode continuar acontecendo é o plantio lavouras ilegais no País. É pior vender gato por lebre, aí sim vamos perder a credibilidade , afirmou.
O economista e diretor técnico da Safras & Mercados, Flávio Roberto de França Júnior, disse que existe um tabu em torno da produção de trangênicos que acaba produzindo um enfoque errado sobre o assunto. Não sou a favor nem contra a liberação, mas a afirmação de que o cultivo vai prejudicar a posição do Brasil no mercado externo não é verdadeira, afirmou.
França afirma que Brasil tem avançado em volume de exportações de soja mas não em preço, se comparado com a Argentina, onde 90% do grão cultivado é transgênico. O argumento que há um preço melhor pela soja não transgênica não está validado ainda. Talvez quando houver liberação do cultivo esse ágio possa ser pago, comentou.
Segundo o economista da Safras & Mercados, sempre existiu uma diferença de preço entre o produto brasileiro e o argentino, mas por uma questão de qualidade, ligada ao teor de proteína. Mas mesmo assim esta diferença caiu no ano passado. O produto brasileiro no ano passado valia 3% a mais que o argentino. Mas na média histórica dos últimos 10 anos, essa diferença era de 5%, observa.
Outro indicador que comprova que a soja transgênica não limita as exportações foi o crescimento da participação da Argentina no mercado mundial. Segundo França Júnior, o país vizinho respondeu por 13% em 2000, e no ano passado a participação saltou para 15%. O Brasil também cresceu, passando de 28% para 30% no mesmo período. Já os Estados Unidos tiveram uma queda de 3 pontos percentuais na sua participação no período, passando de 49% para 46%. E o principal destino das exportações de soja argentina continua sendo a Europa, apesar da redução do volume para esta região, comentou.


