São Paulo - No mercado financeiro, a palavra crise é usada com parcimônia. Afinal, trata-se de um setor no qual oscilações, muitas vezes intensas, fazem parte da rotina diária. Por isso, quando a atual turbulência financeira começou, há exatos 20 dias, todos os profissionais do ramo a descartavam com veemência. A escalada de nervosismo na semana passada, que obrigou diversos bancos centrais a injetar cerca de US$ 300 bilhões nos mercados de crédito, mudou essa situação. A negação veemente foi substituída por expressões evasivas, como ''veja bem'', ''ainda não'' e ''não é o que parece, mas''. Em resumo, se no início praticamente todos bancavam que não era uma crise, hoje ninguém garante que não é.
Basicamente porque não se tem a exata dimensão do que pode ocorrer daqui para frente. ''É como se estivéssemos numa casa sem luz, à noite, munidos apenas de uma lanterninha. Como a luz do dia ainda demora a chegar, o único jeito é caminhar lentamente, esquivando-se dos obstáculos que aparecerem pelo caminho'', compara o economista Roberto Padovani, economista do Banco WestLB.
No início, os prejuízos decorrentes da crise imobiliária dos Estados Unidos pareciam restritos às empresas do ramo, a fundos de investimento que tinham em suas carteiras papéis lastreados em hipotecas de alto risco (subprime) e a instituições especializadas em empréstimos para a compra de imóveis.
Os efeitos, porém, se espraiaram. Fundos de importantes bancos, como o francês BNP Paribas e o americano Bear Stearns, tiveram pesados prejuízos por causa do crescimento dos calotes no segmento subprime. Isso provocou o aumento da chamada aversão ao risco, que praticamente paralisou o mercado de crédito de alguns países na quinta e sexta-feira passadas.
Se a atual turbulência se transformar em uma crise financeira, será a primeira do gênero desde 2001, ano marcado por uma recessão nos EUA que foi aprofundada pelos ataques terroristas ao World Trade Center. Essa crise, por sua vez, foi a última de uma sequência iniciada em 1997, na Ásia - que teve também a quebra da Rússia e do fundo hedge Long Term Capital Management (LTCM), em 1998; a desvalorização do real, no início de 1999; e a crise da Argentina, em 2001.
''Essas coisas (crises) a gente nunca sabe o tamanho quando está começando. Hoje claramente não se pode dizer que seja semelhante à crise da Ásia, mas seguramente é uma coisa mais séria do que o solavanco de seis meses atrás na Bolsa de Xangai'', afirma o economista Gustavo Franco, que presidiu o Banco Central (BC) entre agosto de 1997 e janeiro de 1999.
Para ele, o momento atual se assemelha ao da quebra do LTCM em 1998. ''Quando esse fundo hedge estourou, afetou profundamente bancos importantes no cenário global, o que gerou uma grande crise.''

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