Escândalos não afetam fundamentos econômicos
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sábado, 11 de junho de 2005
Patrícia Campos Mello<br>Agência Estado 
São Paulo - O escândalo do ''mensalão'' (suposto de esquema de propina pago a deputados do PL e PP para votar matérias de interesse do governo Lula) abalou o dólar, a bolsa e os títulos da dívida externa. Mas, pelo menos por enquanto, o imbróglio poupou os fundamentos da economia. Economistas, analistas do mercado e empresários ouvidos pela Agência Estado afirmam que a crise ainda se restringe aos ativos financeiros, mais sensíveis a boatos e volatilidade. Os fundamentos econômicos do País, como o índice de inflação, crescimento e emprego, escaparam ilesos da turbulência política.
''Os fundamentos econômicos são suficientemente sólidos para escapar de consequências mais graves'', diz Celso Toledo, economista-chefe da MCM Consultores. Fosse há uns quatro anos, quando a vulnerabilidade externa do País era maior, o estrago seria bem maior. ''Não fossem nossos fundamentos sólidos, o risco País teria subido 200 pontos, em vez dos 40 pontos que subiu.''
Mas os escândalos podem contaminar o cerne da política econômica se a crise não for resolvida logo. Segundo Toledo, o País passa por um período de estresse, que atinge os termômetros de curto prazo, como taxa de câmbio e risco País. ''Agora, se a crise persistir ou se agravar muito, veremos consequências sobre inflação e juros'', diz Toledo.
O timing da crise política tem aspectos positivos e negativos. Por um lado, a crise política se agrava justamente no momento em que o crescimento econômico dá sinais claros de desaceleração, como mostram os últimos números do IBGE.
Por outro, o País está muito mais resistente a esse tipo de crise. A vulnerabilidade externa caiu muito - o País tem superávit em conta corrente e balança comercial recorde, o que reduz a possibilidade de efeitos catastróficos de grandes apostas contra o real.
Ao mesmo tempo, o mundo colabora. A situação de liquidez no mundo continua muito favorável. O rendimento dos títulos americanos ainda é muito baixo, o que leva investidores a continuarem buscando rentabilidade nos papéis de emergentes. Por isso, eles fecham os olhos para certos tropeços. ''Na atual conjuntura, a crise política está sendo praticamente ignorada por alguns investidores, que apostam na solidez macroeconômica do País'', diz um analista.
Mas o momento é delicado, alertam especialistas. Segundo Dirceu Bezerra, sócio-diretor da Rosenberg & Associados, já existia uma crise política antes do atual imbróglio. ''Mas, como o quadro econômico estava robusto e o cenário internacional estava muito positivo, não tinha havido contaminação'', lembra. Agora, diz Bezerra, o panorama não é tão benigno. Segundo ele, a economia mundial deve ficar mais avessa a riscos nos próximos meses, o que pode levar o risco Brasil ao patamar dos 500 pontos. ''O problema é que o governo não vai poder fazer nenhum pacote emergencial, porque não tem base de apoio para aprovar uma medida dessas'', diz. A crise política, portanto, restringe os instrumentos disponíveis para contrabalançar uma situação internacional menos favorável.
Outro senão é que falta apenas um ano e meio para o mandato do presidente Lula acabar e, segundo o economista, não dá mais tempo de as reformas avançarem. ''E falta muita coisa para transformar o crescimento em um processo sustentado - a reforma trabalhista, para reduzir os encargos, a reforma política.''
Para Bezerra, o governo está entrando em terreno movediço. O País está no fim de um período de crescimento cíclico, não sustentado, e está diante de uma potencial crise política e um provável aperto de liquidez externa. Outro risco é a instabilidade política levar o governo a um afrouxamento da política econômica. Para garantir a governabilidade, o Planalto pode se sentir tentado a distribuir verbas e reduzir as taxas de juros.


