Escalada do calote assusta o comércio
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sábado, 21 de fevereiro de 1998
Cláudia Lopes 
Mário CésarEm cadeiaJoão Pereira da Cruz, proprietário de uma rede de móveis, fechou duas lojas no mês passado: Inadimplência é uma bola de neve. Se não recebo, não pago os meus fornecedoresAs medidas adotadas pelos comerciantes de Londrina para se proteger dos calotes não têm surtido grandes resultados. Além de consultas ao Sistema de Proteção ao Crédito (SCPC), muitos passaram a receber apenas em dinheiro - a não ser quando o cliente é conhecido - tamanha a quantidade de cheques voadores na praça. Por causa de atraso nos recebimentos, o lojista João Pereira da Cruz, proprietário da rede JPC Móveis, fechou duas lojas no mês passado, em Londrina. De seis, agora ele tem quatro unidades. Fui obrigado a enxugar meu negócio para conter gastos e aumentar o dinheiro do giro, diz. A inadimplência é uma bola de neve. Ao não conseguir receber, o comerciante acaba ficando inadimplente com seus fornecedores.
Nas lojas JPC Móveis, a inadimplência vem aumentando gradativamente desde outubro passado. Hoje chega a 40%, calcula Cruz, que tem uma carteira de três mil clientes. Ele diz que, de cada 100 duplicatas, 70 têm algum tipo de atraso - mesmo que sejam poucos dias. O Carnaval certamente terá reflexos negativos neste quadro, segundo o empresário. Apesar da taxa de juros no atraso de duplicatas ser de 8% ao mês, a diferença numa parcela de R$ 200 é relativamente pequena. Muitos consumidores preferem viajar no Carnaval, gastando o valor da prestação, e pagar R$ 216 no próximo mês.
Cruz também reduziu a forma de pagamento, no crediário próprio, diminuindo de cinco para quatro parcelas. No mês passado firmamos contrato com uma financeira para não termos que bancar tudo por crediário próprio, diz ele. Cruz conta que o perfil dos inadimplentes mudou. Não é mais o mal intencionado que atrasa a prestação. É aquele cidadão que tem casa própria e emprego estável mas que está enrolado com as contas. Como não há nada que o desabone e ele não está seprocado, nem adianta consultar o SCPC.
Ele afirma que muitos clientes tradicionais ligam para pedir para não depositar o cheque ou descontar a duplicata. Na semana passada, Cruz recebeu vários telefonemas solicitando a reprogramação do dia de pagamento. O comerciante não quer receber juros. Ele não é banco. Prefere receber pontualmente para poder cumprir seus compromissos, diz Cruz, salientando que o governo deveria adotar uma política de amparo ao comércio. A saída para o comerciante conseguir bancar a inadimplência seria a disponibilização de linhas de crédito para capital de giro.
O proprietário do Posto 15, Luiz Bonognesi, resolveu mudar o sistema de proteção adotado em seus quatro postos há cerca de 1 ano. Antes, trocava dados entre os maiores postos da Cidade. Nesta semana, passou a receber informações do Banco Central on line. A mudança foi necessária por causa do aumento no número de cheques devolvidos. Ficou inviável xerocar todos para colocá-los no sistema.
Segundo Bonognesi, cerca de 400 cheques são devolvidos semanalmente. Destes, consigo receber a metade. Uma parte do prejuízo é repassada para o preço do produto e, a outra, tenho que absorver, diz. Ele reclama das dificuldades em tentar receber as dívidas. Para protestar um cheque no cartório, tenho que pagar uma taxa de R$ 25,80. Além disso, um oficial de justiça cobra entre R$ 50 e R$ 80. A execução do devedor acaba sendo antieconômica, diz ele. Bonognesi afirma que, de cada mil cheques depositados, 100 são devolvidos.
Há sete meses, a média de devoluções era menor. Para fazer as cobranças, abri um escritório e contratei quatro funcionários, além de um advogado. O prejuízo é tão grande que já ameaça a estrutura do negócio, diz Bonognesi. Mensalmente, ele gasta R$ 2 mil para tentar receber os cheques.
Para evitar problemas do gênero, o dono da Padaria Avenida, Antonio Ferreira,
não aceita cheques - a não ser de pessoas conhecidas. Às vezes, um desconhecido gasta R$ 3 e quer dar um cheque de R$ 10 para pagar a conta. Prefiro pendurar e não receber a arriscar e perder o troco também, diz ele.
Paulo Marczuk, dono da Mercearia de Paulos Conveniência, diz que também tem evitado receber cheques em sua loja. Aquele cliente que até ontem era bom pagador, hoje está dando cheque sem fundo. Mesmo pegando cheque só de conhecido, de vez em quando tenho problema, diz.
Dos 190.592.805 cheques compensados em todo o Paraná no ano passado, 3.247.412 foram devolvidos por falta de fundos. Os dados são do Banco do Brasil. Os números do Sistema de Proteção ao Crédito (SCPC), da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), mostram que a inadimplência na Cidade cresceu 54,88% em janeiro deste ano em comparação com a de 1997.


