Equívocos on-line
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de novembro de 2001
Evan I. Schwartz 
Situação prazerosa para as pessoas comuns é constatar a fragilidade de algumas previsões realizadas por especialistas. Neste caso, flagrar o erro é delirante porque o alvo do relativo descrédito são os estudiosos, figuras que, em tese, têm a obrigação de acertar. Antever o futuro, contudo, não é tarefa das mais fáceis, principalmente se essa visão estiver associada à Internet.
Nos últimos anos, essa tecnologia suscitou inúmeros prognósticos equivocados, graças ao seu próprio caráter imprevisível. Apesar da condição desconfortável para aqueles que se arriscam, a inevitável necessidade de se realizar negócios on-line força os peritos a continuar tentando adivinhar o futuro. Afinal, o mundo dos negócios precisa tirar o melhor proveito das possibilidades que a Internet oferece, seja absorvendo lições, descartando prognósticos, testando possibilidades ou invocando apenas o feeling pessoal, mesmo que na contramão da maré.
Se os erros do passado também nos ensinam a melhorar o presente, como apregoam os historiadores, podemos tentar descobrir os mistérios da Internet avaliando alguns dos prognósticos mais desbaratados sobre o tema, realizados entre 1995 e 1996, logo no início da disseminação da rede mundial.
Durante esse período, magos da web apostavam que ninguém se atreveria a comprar virtualmente usando cartões de crédito, dada a fragilidade de proteção aos usuários. Indivíduos empreendedores resolveram transformar essa suposição em oportunidade de negócios. No afã de fazer fortuna, desenvolveram sistemas de pagamento altamente seguros, batizados como dinheiro digital. O ''elemento'' imprevisível, contudo, fez desmoronar o sonho dessas ''promissoras'' empresas, responsáveis por softwares que armazenavam moedas digitais criptografadas ou aplicativos que traduziam os débitos digitais em moeda corrente.
O comportamento dos consumidores fez a diferença. A maioria das pessoas ignorou a ameaça invisível dos hackers e passou a comprar virtualmente toda a sorte de produtos, de livros e jogos a eletroeletrônicos e automóveis. Com a grande demanda, os próprios navegadores incorporaram programas de criptografia, descartando acessórios de segurança de terceiros.
Edward Hogan, vice-presidente sênior da MasterCard, que em 1996 afirmou ser o dinheiro eletrônico promessa bilionária até o final do século, certamente não imaginava essa virada, assim como os criadores do dinheiro digital, que transformaram em prejuízo muitos milhares de dólares.
Até mesmo Bill Gates errou ao afirmar que o máximo de capacidade que um usuário precisaria para utilizar um computador era 640 kilobytes. Hoje, grande parte das máquinas são dotadas de 200 vezes mais que isso.
Quem não se lembra dos boatos sobre a falência da AOL, em meados de 1995, quando se previa que os serviços on-line com nome e marca estavam com os dias contados? O que parecia líquido e certo em 1996 (ano em que a AOL, então com mais de cinco milhões de assinantes, amargava problemas de acesso e lentidão durante a navegação) virou erro de avaliação meses seguinte, quando o portal anunciou crescimento de 100% no número de assinantes.
Também em 1995, os grandes mistérios a serem desvendados sobre a Internet eram: qual sua capacidade de atrair usuários e quanto ela captaria em dinheiro, a curto prazo. Muitas estimativas para os anos seguintes foram lançadas no mercado. O curioso desse episódio é que, contrariando a lógica sempre otimista que acompanha as projeções, os valores foram subestimados. A Forrester Research, por exemplo, acreditava, em 1995, que em 36 meses a Internet teria cerca de 35 milhões de usuários. Na mesma época, a Júpiter Communications projetava que o comércio eletrônico movimentaria, também no espaço de três anos, US$ 3,1 bilhões. Imaginem qual não foi a surpresa dos especialistas quando, em 1998, foram divulgados números infinitamente mais robustos, que excediam 100 milhões de usuários e US$ 13 bilhões.
Mas, provavelmente, o maior equívoco de todos foi a tecnologia push, programa de busca focado no interesse específico do usuário, acompanhado de propaganda, que, em tese, substituiria a pesquisa genérica realizada pelos navegadores. Esse ''ovo de Colombo'' foi reverenciado por executivos da Time Inc e da C/Net, importante serviço de notícias, e ganhou páginas e páginas nas mais respeitadas publicações norte-americanas. Houve até quem anunciasse a extinção dos navegadores.
Fato mais curioso foi a ascensão relâmpago de Kim Polese, executiva de uma jovem empresa fabricante de programas push que, em menos de um ano, tornou-se celebridade nacional. O resultado de tanto estardalhaço foi grande frustração: os usuários não gostaram da apresentação visual do programa e as pessoas jurídicas que o utilizavam constataram que suas redes estavam sobrecarregadas com o conteúdo empurrado. Mais uma vez, a profecia não se confirmou. As bolas de cristal também falham.
- EVAN I. SCHWARTZ é especialista em e-business e escritor dos best-sellers ''Webeconomia'' e ''Darwinismo Digital''


