Entrevista - 'Empresas têm que deixar papel de mãe'
Cláudia Lopes
De Londrina
A filósofa Maria Aparecida Rhein Schirato defende a prestação de serviços como uma das saídas para o desemprego e diz que não se pode subestimar o momento que vivemos no Brasil. Para ela, o conceito de emprego está mudando por causa do avanço tecnológico e da revolução na informações. Maria Aparecida afirma que as empresas brasileiras têm que deixar de lado o papel de mãe e a política de pertencimento. Segundo a filósofa, o funcionário orientado a vestir a camisa da organização se acomoda e não investe em reciclagem profissional, prejudicando a si próprio e a empresa.
Na semana passada, Maria Aparecida participou como palestrante do 18º Ciclo de Estudos de Administração, em Londrina, numa mesa redonda que discutiu A dimensão imaginária do trabalhador na organização. Consultora de empresas na área de Recursos Humanos há 13 anos e professora de pós-graduação em cursos para executivos no Inbrape, ela é mestre em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e mestre em educação na área de cultura pela Universidade de São Paulo (USP). Leia abaixo trechos da entrevista concedida à Folha na última sexta-feira.
Folha Por que escolheu como tema de sua pesquisa acadêmica a dimensão do imaginário do trabalhador?
Schirato Ao acompanhar centenas de demitidos de uma grande empresa de aviação, percebi que as pessoas demonstravam um sofrimento terrível por estar se desligando da organização, embora não estivessem motivos concretos para isso. Todos ganhavam bem, tinham boa qualificação, competência profissional e estabilidade financeira mas se sentiam impotentes e abandonados. Isto me fez descobrir a dimensão do imaginário do trabalhador e o que representa estar dentro de uma grande organização, cuja política de recursos humanos é protecionista, provendo todas as necessidades dos funcionários através de benefícios e usando o discurso de que todos fazem parte de uma grande família.
Folha Qual foi a proposta deste trabalho?
Schirato Minha proposta é que se reveja a política de recursos humanos e que não se substime este momento que estamos vivendo no Brasil. Não estamos passando por um momento de crise do emprego. Temos sinalizações concretas que a tendência é o término do emprego. Cada vez mais a tecnologia e informação avançam e reestruturam o mercado. E este avanço tecnológico informacional é muito diferente do avanço que temos em termos de políticas de trabalho e de recursos humanos. Temos uma política de RH com um discurso da época em que havia estabilidade de emprego e planos de carreira. Este conceito tem que mudar. Não adianta mais ficarmos achando que a crise vai passar e os empregos irão voltar. Também não podemos acreditar que esta reestruturação é fruto de uma política econômica, porque não é.
Folha Qual é o discurso das empresas brasileiras frente a estas mudanças?
Schirato Continua sendo um discurso de mãe e pai, protecionista, e que provoca a fusão da identidade individual do cidadão com a do trabalhador. Ele deixa de ser um cidadão de seu bairro para ser o de uma determinada empresa. É o sentimento de pertencimento, que é uma desgraça. E se ele perde este emprego, sente-se abandonado e rejeitado pela mãe, que virou a madrasta.
Folha O que acontece quando este trabalhador perde o emprego?
Schirato Um caos, que pode ser avaliado sob dois aspectos: o concreto e o imaginário. No concreto, o demitido não sabe quanto ganha, quanto vale e não tem noção de quanto custa sua hora de trabalho. Também não sabe como transferir seu ofício para o mercado porque está mais identificado com o produto do que com seu ofício. Além disso, não tem um currículo porque a elaboração deste documento dentro da empresa ainda hoje é considerada traição. Isso demonstra o nível de posse da empresa. Também existe a inabilidade de viver fora da empresa. Muitas pessoas entram no trabalho ao amanhecer e saem à noite e por isso não têm traquejo do mercado, da praça, do trânsito... São acostumadas a viver confinadas. Este trabalhador precisa ser alforriado.
Folha Qual é a sugestão para mudar este quadro?
Schirato A mudança depende da empresa, do trabalhador e do Estado. Se o Estado não cumprir seu papel, ou seja, investir em políticas públicas, a empresa acaba desempenhando sua função. A organização mantém os benefícios ao trabalhador porque existe esta lacuna do Estado. Aí entra o lado do feitiço, da sedução. Quando o indivíduo entra numa determinada empresa passa a ser um cidadão vip.
Folha Qual a forma ideal de trabalho?
Schirato Para a empresa, o ideal é que o trabalhador produza. O desempenho de pelotão imposto pelas organizações depõem contra elas próprias. Um funcionário movido a campainha e relógio não é criativo. O ideal é a flexilidade total, a prestação de serviços sem horários rígidos e com contratos feitos em cima de metas e objetivos pré-estabelecidos. A flexibilização é uma tendência mundial.
Folha Desvinculando-se da empresa mãe, o trabalhador tem mais tempo para ele?
Schirato Com certeza. A produtividade não aumenta porque o funcionário fica dez horas dentro da empresa. Ao ficar tanto tempo no trabalho, ele transfere o lúdico para aquele espaço, faz fofoca, toma centenas de cafezinhos e passa um monte de piadas por e-mail. É uma perda de tempo e enganação de ambos os lados. A empresa perde muito e trabalhador também porque, neste tempo, está deixando de cuidar da sua vida, de fazer cursos, ver novela ou dança de salão. A empresa não tem o direito de monopolizar a cabeça, o corpo e o coração do funcionário.
Folha As empresas brasileiras estão mudando?
Schirato Algumas estão introduzindo as mudanças e políticas de RH avançadas, ao invés de ter um discurso institucional e burro.
Folha É hora então do Recursos Humanos se reciclar...
Schirato Exatamente. A política de RH vigente até hoje é arcaica, conservadora, fora de época. Mas o trabalhador também precisa mudar. Enquanto continuar com o mesmo discurso, querendo emprego e carteira assinada será cada vez mais engolido por estas transformações, que efetivamente já ocorreram. Para manter o emprego, os trabalhadores retrocederam muito. Alguns, perderam a dignidade e vendem até a mãe...
Folha Diante deste quadro, qual a postura do sindicato?
Schirato O sindicato tem que parar de pedir proteção e exigir paridade. Tem que ajudar a qualificar o trabalhador. O indivíduo filiado a qualquer sindicato tem o direito de ser qualificado. Não pode fazer parte de uma massa sem condições de sobrevivência.
Folha E as universidades, como têm agido frente a estas mudanças?
Schirato A maioria continua vendendo ilusões, dizendo que o aluno que cursá-la terá emprego garantindo no mercado. Mas a sociedade também tem um papel a desempenhar na formação de pessoas, através do voluntariado. Dá para atuar no ensino dos analfabetos, por exemplo. Ainda precisamos aprender a qualificar nossas habilidades. Infelizmente, os brasileiros acham que não precisam de qualificação. A ex-dançarina Carla Perez é um bom exemplo. Ela tinha o jeitão para a dança mas não era bailarina. Foi se meter a fazer o que não dominava e acabou machucada. A seleção brasileira de futebol é outro exemplo. Os jogadores teimam em acreditar apenas na habilidade, deixando de lado os treinamentos. Veja no que dá...
Folha E o empresário brasileiro. Qual é a sua visão?
Schirato Muito restrita. Para ele é mais importante ter um funcionário servil do que competente. Algumas empresas não preparam seus trabalhadores para que não despertem o interessante da concorrência. Não percebem que, desde modo, assumem o discurso da incompetência. Mas por que vou querer um empregado que não serve para o meu concorrente? Então, também não serve para mim.
Folha Existe emprego para este enorme contingente de pessoas?
Schirato Não, se continuarmos fixados nestes grandes pólos de produção. É preciso diversificar o universo de produção, através de uma política de incentivos para manter o homem no campo, na agricultura, por exemplo. Os grandes centros estão saturados e vão ficar mais ainda enquanto continuarmos reduzindo o pouco que existe nas mãos de alguns. A redução da jornada de trabalho e incentivos à prestação de serviços são boas alternativas. É necessário dividir entre todos, pelo menos como medida provisória, e buscar estratégias que nos permitam administrar as mudanças. Enquanto insistirmos no velho discurso, seremos vítimas destas mudanças. Temos que exigir, também, que o Estado se posicione e cumpra o que lhe é devido.
Folha E a tercerização?
Schirato É uma ótima saída. O problema é que, como tudo no Brasil, é feita à moda da casa. A tercerização virou sinônimo de subemprego. O empresário exige de um grupo de tercerizados a prestação de serviços de forma integral, oito horas por dia e cinco dias por semana, tirando dele as condições de possuir uma carteira de clientes.Filósofa com especialização em RH diz que conceito de emprego mudou e impõe novo relacionamento entre empresa e trabalhador
Paulo WolfgangPERDA MÚTUAMaria Aparecida Schirato: Quando o funcionário fica muito tempo no trabalho, transfere o lúdico para lá. Faz fofoca, toma centenas de cafezinhos, passa um monte de piadas por e-mail. É uma enganação dos dois lados





