Entre Davos e Porto Alegre
O Brasil convive com a alta tecnologia e com a fabriqueta de fundo de quintal, convive com a globalização e com o comércio regulado pelo escambo, com o trabalhador super qualificado e com o analfabeto. Somente um diagnóstico preciso dessa circunstância nos levará a construção de uma política de desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, de bem estar social.
Muita gente vem gastando tempo, intelecto e energia no debate de uma falsa questão: os males da globalização. Há quem a defenda ardorosamente, como forma de garantir o ingresso do País na modernidade. Outros condenam a globalização, como se representasse a derrota inevitável para o leviatã capitalista. Não se trata de uma coisa nem outra.
Neste sentido, a resposta não estava em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial. É preciso acabar de vez com esse complexo de inferioridade que aflige nossas elites, esse desejo incomensurável de fazer parte do Primeiro Mundo. De que serve uma política que organize a economia e nos coloque na condição de detentores da população mais pobre do planeta? Davos discutia como aprofundar esse abismo e a presença brasileira lá deveria representar um pólo crítico e para tanto organizar os países que vivem a mesma situação como os países da Indochina, África do Sul, o Cone Sul latino-americano etc, para um real enfrentamento da política de superexploração de nossos trabalhadores. Infelizmente não é essa a postura de nossos dirigentes e técnicos do alto escalão. Pelo contrário, fazem o possível para frequentar os salões principais, mesmo ficando na última mesa embaixo da escada.
Ao mesmo tempo o desprezo do governo brasileiro pelo Fórum Social Mundial de Porto Alegre, ocorrido na mesma época, é emblemática. Caso o governo brasileiro se desse conta da importância da discussão do caráter social do desenvolvimento certamente teria se empenhado em transformar o Fórum de Porto Alegre em um encontro mundial dos governos que buscam uma alternativa a Davos. Esse papel coube ao Governo do Rio Grande do Sul, aos órgãos de imprensa alternativa, às ONGs, enfim, aos setores que são críticos à política econômica dos grandes impérios econômicos do planeta. Resultado, o governo brasileiro (do alto dos Alpes suíços) procuraram satanizar o encontro de Porto Alegre e não levaram em consideração o verdadeiro painel construído sobre a situação mundial do ponto de vista dos países subdesenvolvidos.
Não se tratava de dois encontros, um favorável à globalização e outro contra. Esta é uma forma muito simplificada de avaliação. O fato é que o Brasil, além das soluções que levem em consideração a globalização da economia, precisa também de outras alternativas para o extenso campo não globalizado de nossa economia. A diferença entre um pólo e outro é abissal e, se precisamos de alta tecnologia, também precisamos de soluções para as nossas formas mais simples de produção e comércio. Formas solidárias de produção e comércio, o incentivo ao auto emprego, as cooperativas populares, uma política de investimento social, como o banco do povo, que seja mais sensível a esse 50% da população economicamente ativa que não está no mercado formal de emprego e que não merecem a condição de cidadãos de segunda categoria a que estão sendo relegados.
Certamente, com uma política desse porte não será possível transformar o Brasil em um país de Primeiro Mundo, mas seremos exemplo, um grande país com justiça social e condições mínimas e adequadas de vida para seu povo.
- ODAIR FURTADO é professor-doutor em Psicologia Social, autor do livro Psicologias Introdução à Psicologia Social, vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e coordenador do Núcleo Unitrabalho da PUC-SP.





