ENTENDA A CRISE
Por que o País recorreu ao FMI
Crise mundial - Depois das crises financeiras internacionais, nos países do Sudeste Asiático e na Rússia, o Brasil passou a ser visto como um forte candidato a também enfrentar problemas. Isso porque exibia déficits crescentes nas contas públicas e contas externas. O temor era que o País tivesse de recorrer a uma moratória
Fuga de recursos - Enfrentando grave crise de credibilidade no mercado externo, materializada na maciça fuga de investidores, o País contabilizou violento encolhimento, de aproximadamente US$ 50 bilhões, de suas reservas, em apenas sete meses
Mudança no câmbio - Para estancar a sangria nas reservas, o governo mudou a política cambial - o valor do real diante do dólar, em 15 de janeiro. As desvalorizações do real, antes definidas pelo Banco Central, passaram a ser determinadas pelo próprio mercado, de acordo com oferta e procura. Em praticamente dois meses, a desvalorização está em 60%.
Ajuda externa - Além de mudar o câmbio, o País foi obrigado a pedir socorro a organismos internacionais, até que possa reestruturar sua economia e fazer frente a eventuais ataques especulativos contra a moeda nacional (corrida para a troca de reais por dólares, para remessas ao exterior)
Acerto econômico - áPara obter recursos de entidades de crédito como o FMI, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e bancos de 20 países ricos, o Brasil terá de submeter-se a determinadas condições que levem à redução de dependência do capital estrangeiro, ao aumento das reservas internacionais, redução e controle da dívida pública, inflação, juros e câmbio
O que é o acordo com o FMI
Na essência, as principais metas estão ligadas ao controle das contas públicas (equilíbrio entre receitas e despesas) e contas externas (equilíbrio entre entrada e saída de dólares do País). O País precisa deixar claro que poderá honrar os compromissos internos e internacionais.
Superávit primário - áO saldo da diferença entre receitas e despesas não-financeiras das contas do governo, sem incluir despesas com juros da dívida pública, deverá ser positivo (superávit) em 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB, bens e serviços produzidos no País, em torno de US$ 900 bilhões). A meta será alcançada com aumento de receitas (aumento de impostos) e redução de despesas públicas dos governos federal, estadual e municipal.
Dívida pública - O volume total que o governo deve ao setor privado e ao mercado financeiro, em títulos, não pode superar 49,3% do Produto Interno Bruto
Juros - Deverão ficar em 28,8% este ano, na média nominal, com previsão de queda para 16,6% no ano que vem
Inflação - Poderá ficar em 16,8% este ano e cair para 6,5% em 2000
Balança comercial - Saldo apurado pela diferença entre exportações e importações deverá ser positivo (superávit) em US$ 11 bilhões este ano
Contas correntes - A diferença entre o total de dólares que entram no País por meio de exportações, investimentos, transferência de recursos de residentes no exterior para familiares aqui e o total da saída por meio de importações, transferência de recursos das filiais para matrizes no exterior, pagamento de serviços como frete, seguros e turismo estará limitada este ano a um déficit (saldo negativo) máximo de US$ 17 bilhões este ano
Câmbio - A cotação do dólar deverá chegar ao fim do ano equilibrada em R$ 1,70
Produto Interno Bruto (PIB) - A produção de todos os bens e serviços da economia vai apresentar, por causa das medidas do ajuste, uma queda entre 3,5 e 4% este ano, mas deve voltar a crescer entre 3% e 4% a partir do ano que vem
Privatização - O programa de venda de empresas estatais deve render US$ 27,8 bilhões este ano
Consequências
O corte de gastos públicos, a queda das importações, a manutenção de juros elevados, entre outras, são medidas que travam a economia e, portanto, devem aprofundar ainda mais a recessão. O desemprego tende a aumentar. Os consumidores deverão enfrentar mais dificuldades para pagar suas contas e os números da inadimplência tendem a crescer. O crédito pode ficar mais caro e mais difícil. A oferta de produtos no mercado pode encolher, seja porque a produção deverá diminuir, seja porque boa parte do que for produzido deverá ser exportada. Nas aplicações, embora existam ações com preços convidativos, as bolsas tendem a atravessar períodos de instabilidade; como a tendência é de queda para os preços do dólar, aplicações amarradas a essa moeda podem frustrar investidor; na renda fixa, os fundos DI permanecem os mais indicados porque acompanham a trajetória dos juros
O que fazer
Momento exige cautela redobrada: os gastos devem ser contidos, deve haver prioridade para acerto de dívidas e formação de uma reserva financeira

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