A produção de energia elétrica no Brasil voltou a fazer parte dos projetos estratégicos do governo federal para evitar problemas como o apagão registrado no setor no começo desta década. E uma das soluções previstas no Plano Nacional de Energia é pelo menos dobrar a produção de energia nuclear nos próximos 20 anos. A produção atual das usinas nucleares é de quase 2 mil megawatts. A informação é do engenheiro naval Leonam dos Santos Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear, que recebeu a equipe da Folha na sede da empresa, no Rio de Janeiro. ''A gente trabalha com diferentes cenários de se implantar mais 4 mil megawatts elétricos nucleares; mas há cenários para seis mil e oito mil megawatts'', afirma.
Recentemente, o próprio ministro das Minas e Energia declarou que o Brasil precisaria de 47 usinas nucleares para atender a demanda de energia elétrica até o ano de 2050. O assessor da Eletronuclear reconhece que não existe nenhum planejamento para tão longo prazo, mas analisa que ''a declaração do ministro não é absurda''. Ele acredita que a declaração do ministro foi baseada no estudo de um instituto norte-americano que levantou aquele número de unidades de produção de energia para o Brasil há alguns anos.
Guimarães afirma que, tomando por base os 4 mil megawatts de energia nuclear, a previsão é de que metade deste potencial seja instalado no Nordeste e a outra metade na região Sudeste. O Nordeste foi escolhido por não ter condições para a construção de novas hidrelétricas e por apresentar nos últimos anos, um índice de desenvolvimento um pouco maior que a média nacional.
O especialista diz que o Brasil precisa dobrar a produção de energia elétrica para melhorar a classificação no ranking mundial de consumo de eletricidade. O País ocupa, atualmente, o 90º lugar no consumo per capita no mundo, com uma capacidade de 90 mil megawatts instalados nas mais diversas formas de geração de energia elétrica. Para chegar ao consumo per capita de Portugal, que ocupa uma posição intermediária no ranking, o Brasil precisaria ter ao menos 180 mil megawatts instalados. ''O Brasil tem um desafio monstruoso pela frente. Hoje, o nosso consumo por pessoa é muito menor que os índices do Chile e da Argentina. E o consumo per capita de eletricidade é um indicador de qualidade de vida'', disse Guimarães.
Segundo ele, o Brasil reúne todas as condições necessárias para superar este desafio. ''Graças a Deus, nós temos muitas alternativas. O Brasil tem um grande potencial hidrelétrico a ser explorado; tem bastante carvão, mas usa pouco; tem petróleo, gás natural e biomassa. E isso nos dá uma enorme vantagem competitiva''.
De acordo com o especialista, o País deve aproveitar todo este potencial energético disponível, sem dar preferência a uma ou outra forma de geração. ''O fato de termos várias alternativas não significa que a gente deva descartar algumas delas. Uma não substitui a outra. Todas são necessárias e complementares''.
Para Guimarães, a defasagem que o Brasil enfrenta hoje em termos de energia elétrica se deve à uma falta de planejamento para o setor nos últimos 15 ou 20 anos. ''Houve uma certa ilusão neoliberal de que a expansão do setor energético seria feito com base em uma economia de mercado, mas isto não aconteceu nem no Brasil e nem em nenhum lugar do mundo''.
Agora, o governo federal retomou o planejamento energético no País para atender as necessidades de curto e médio prazos. O curto prazo neste sentido, explica Guimarães, é um projeto para 10 anos. Ele diz que uma obra de grande porte no setor precisa de pelo menos nove anos para ser implantado. Neste plano decenal, está prevista a construção da terceira unidade no complexo nuclear de Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro.

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