O Paraná quer mostrar ao mundo que é possível produzir energia limpa nos âmbitos social e ambiental. Para isso, entretanto, um ponto fundamental precisa ser mudado: as condições de trabalho dos empregados do setor sulcroalcooleiro. ''Queremos que os trabalhadores tenham as condições adequadas para exercerem suas funções. Pretendemos mostrar que é possível produzir cana-de-açúcar de uma forma socialmente responsável, dando dignidade aos empregados'', afirmou Sérgio Silveira de Barros, superintendente regional substituto do Ministério do Trabalho e Emprego no Paraná.
Ontem, ele esteve na cidade para participar de uma reunião com outros membros da Câmara Técnica do Setor Sucroalcooleiro, que debateu questões que envolvem os direitos sociais, legais e morais dos trabalhadores que atuam no plantio, extração, transformação e transporte de cana-de-açúcar. Os problemas que envolvem a situação da Usina Central de Porecatu, cujos funcionários estão há mais de 20 dias em greve, deu o tom da discussão.
Fiscalização realizada no mês de agosto pelo Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo, ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), resultou em mais de 200 auto de infrações, veículos interditados, 228 trabalhadores encontrados em situação degradante, entre outras irregularidades.
Para Barros, a situação na Usina de Porecatu é um caso crônico, com problemas que se estendem há 30 anos. ''Apesar do tempo, entendemos que a solução deve ser definitiva'', apontou. Ele destacou que existem situações críticas pontuais envolvendo as condições de trabalho dos empregados no setor, como o caso da Usina de Porecatu, e outros menores distribuídos pelas 30 usinas do Estado.
''Por isso, queremos dialogar com empregados e usineiros, discutir os problemas e encontrar soluções'', enfatizou o superintendente do ministério. No ano passado, fiscalização do MTE em todo o País, segundo Barros, resgatou 6,7 mil pessoas que atuavam em condições precárias de trabalho. Estima-se que 10% tenha sido no Paraná.
Barros comentou que uma das soluções para minimizar os problemas na Usina de Porecatu, por exemplo, seria o governo implantar o projeto de economia solidária, onde seria feita a autogestão da empresa. A idéia ainda será encaminhada ao Ministério.
O superintendente regional do ministério fez questão de lembrar que o Brasil está em uma ''disputa'' direta com os Estados Unidos na produção de etanol e para ganhar mercado é preciso resolver as questões sociais do campo. ''Precisamos olhar para nossa frente de produção, nossos trabalhadores. Essa leitura tem que se ter: estamos em concorrência econômica'', reforçou.
Para o representante dos empregados do setor de transporte da região, João Batista da Silva, a discussão envolvendo vários líderes do segmento sucroalcooleiro pode melhorar a situação, mas ainda é preciso muito trabalho para solucionar os problemas. ''Estamos muito atrasados nas questões sociais'', frisou Silva. Ele apontou que diferente do que alguns representantes sugerem, os problemas do setor não são exceções. ''Isso é quase uma regra. Lógico que temos usinas que trabalham regularmente, mas a situação, no geral, é grave'', comentou.
Segundo Silva, o setor sucroalcooleiro emprega cerca de 10 mil trabalhadores do segmento de transporte. Em épocas de safra, alguns chegam a trabalhar entre 10 e 12 horas por dia, ''fazendo as refeições sentados à frente do volante''. ''Cerca de 50% desses empregados trabalham em condições inaceitáveis'', pontuou.
Outra reunião da Câmara Temática já ficou agendada para o mês de outubro, em Maringá. Além disso, no encontro de ontem ficou definido que serão realizados seminários - com a participação de trabalhadores e usineiros - para discutir melhor as questões que envolvem o setor. Barros afirmou que todas as críticas dos representantes dos trabalhadores serão avaliadas e apresentadas em futuras reuniões, se possível até com algumas soluções. Novas fiscalizações pelas usinas do Estado não foram descartadas pelo órgão e inclusive pelo Ministério Público.

mockup