Um dos destaques da 25ª edição do “Encontros Folha - Conteúdo com Relevância”, evento realizado na noite de terça-feira (9) no Centro de Eventos do Aurora Shopping, em Londrina, foi o debate sobre como a regulação, legislação e normatização em várias instâncias têm impactado o ambiente corporativo, o mercado e a sociedade nestes tempos de transição energética e economia circular.

Com o tema “Energia que Transforma: Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade Movendo o Futuro”, a programação foi aberta pelo superintendente do Grupo Folha de Londrina, Nicolás Mejía, que lembrou na sua mensagem de boas vindas “que o dinamismo empresarial, a vocação tecnológica e o espírito empreendedor dão à região condições reais de liderar a busca por soluções que conciliem desenvolvimento, segurança energética e responsabilidade ambiental”.

Debate foi mediado por Marco Antonio Ferreira, professor do Departamento de Engenharia de Produção do câmpus Londrina da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná)
Debate foi mediado por Marco Antonio Ferreira, professor do Departamento de Engenharia de Produção do câmpus Londrina da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) | Foto: Roberto Custodio

Os três painelistas se alternaram no palco e depois se reuniram num debate mediado por Marco Antonio Ferreira, professor do Departamento de Engenharia de Produção do campus Londrina da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, que também é coordenador do MBA em Gerenciamento de Projetos.

Na sua explanação, a professora do curso de engenharia elétrica da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Juliani Piai Paiva salientou a importância do Marco Legal da Geração Distribuída, criado pela Lei 14.300/2022.

A regulamentação, disse ela, possibilitou a instalação de sistemas fotovoltaicos em comunidades de baixa renda pelo formato de geração distribuída centralizada, sem a necessidade de instalar um sistema fotovoltaico nos telhados.

Por meio de uma figura societária, como por exemplo uma associação ou um consórcio, toda a população é envolvida no processo. “Esse é o tipo de ação que é transformadora porque você envolve a população, você faz com que ela se sinta dona do equipamento e passe a ter mais cuidado com aquilo”, ressalta Paiva.

Além de diminuir as despesas com energia elétrica, esse sistema mostrou-se eficaz também na redução dos casos de furto de energia. “Em ambientes socioeconomicamente complexos, a taxa de furto de energia elétrica é muito alta e quem paga essas perdas não técnicas somos nós porque elas são incluídas na revisão tarifária anual que as concessionárias fazem.”

Nicolás Mejía, superintendente do Grupo Folha de Londrina
Nicolás Mejía, superintendente do Grupo Folha de Londrina | Foto: Roberto Custodio

Paiva avalia que a regulamentação do sistema fotovoltaico está “bem estabelecida” no Brasil. “O que a gente tem agora é uma reforma do setor elétrico super importante, dada a idade das últimas leis que a gente tem nesse contexto”, destaca.

A professora chama a atenção para a MP 1300, que promove uma ampla reforma no mercado de consumo de energia elétrica no país até dezembro de 2027.

“A MP alterou a tarifa social, por exemplo, que antes era escalonada para um nível de 80 Kw/hora. Então, zera a fatura de quem está na tarifa social. O segundo ponto da MP é a abertura do mercado livre, que gera muita expectativa em relação à competitividade, inclusive para as residências, e o terceiro ponto é a questão dos subsídios”, pontua Paiva, que aposta na MP como um marco revolucionário no mercado de energia elétrica nos próximos anos, no Brasil.

POLÍTICAS DE DESCARBONIZAÇÃO

A coordenadora de Meio Ambiente, ESG e Sustentabilidade da Geo Biogas & Carbon, Isabela Bruna de Tavares Machado Bolonhesi, apontou o avanço nas políticas públicas de incentivo ao uso do biometano em substituição aos combustíveis fósseis.

Uma conquista recente que era aguardada com grande expectativa pelo setor foi a publicação do Decreto Federal 12.614, no último dia 5 de setembro. O documento regulamenta o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano e institui o marco legal do programa Combustível do Futuro.

Dentre outras determinações, a Lei do Combustível do Futuro estabelece o aumento da participação do gás renovável no mercado, começando com uma meta anual de 1% em 2026 e aumentando gradualmente, até atingir os 10%.

“Temos algumas frentes que têm demandado esse aumento na oferta do biometano e, consequentemente, um consumo que deve aumentar nos próximos anos. Isso vai promover a demanda e a produção”, diz Bolonhesi, ressaltando ainda a necessidade de políticas para incentivar o consumo do biometano para agentes não obrigados. “As próprias indústrias, hoje, utilizam o biometano para cumprir metas ESG, mas podem ter incentivos a partir disso, também.”

“Nós somos muito jovens ainda em aproveitamento de biometano no Brasil, então nós estamos construindo as políticas públicas de incentivo e de regulamentação concomitantemente à evolução da distribuição”, afirma Bolonhesi.

Ainda no caso específico do biometano, explicou a coordenadora, existe uma grande expectativa para a regulamentação oficial do crédito de carbono que deve sair entre 2025 e 2026. “A expectativa é que venha em conjunto com o que já foi regulamentado, que é o Sistema Brasileiro de Certificações, mas para nós, que trabalhamos com biometano, é muito interessante o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB).”

ECONOMIA CIRCULAR

A Estratégia Nacional de Economia Circular (a Enec) guia um plano do governo federal que pretende evitar o máximo a poluição e a geração de resíduos, com diretrizes de incentivo ao uso de produtos e materiais mais duradouros e que não percam valor com o tempo, um processo que assegure não apenas a conservação mas a regeneração da natureza em áreas hoje consideradas degradadas.

A geração e distribuição de energia verde em grande escala pode ajudar a resolver a destinação de resíduos em muitas cadeias. “É um tema que está em evidência e que desafia pessoas, empresas e organizações. É também uma mudança que guarda oportunidades”, lembra o professor do campus Londrina da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Marco Antonio Ferreira, do Departamento Acadêmico de Engenharia de Produção e Coordenador do MBA em Gerenciamento de Projetos.

Perguntado pela Folha sobre quais são as chances da implantação de planos estaduais e municipais associados a novas legislações acelerarem as mudanças em direção às políticas regionais de sustentabilidade, o professor se diz otimista. “Os gestores públicos não terão escolha porque a sociedade vai caminhar em direção ao desenvolvimento sustentável e as adequações serão necessárias. A economia circular é o futuro”, afirma Ferreira, que teve a incumbência de mediar e pautar a mesa redonda que encerrou o EF 25.

As novas legislações ajudam a dar visibilidade a cadeias circulares, como a instituição de selos oficiais de reconhecimento para produtos e serviços que sejam elaborados sem gerar resíduos e poluição, novidade que está no texto do projeto de lei que tramita no Senado e que instituiu a Política Nacional de Economia Circular. No Paraná, já está em vigor há dois anos a Lei de Incentivo à Economia Circular, que também autoriza a concessão de um certificado público para empresas que adotam o sistema.

GÁS CANALIZADO

Um dos temas que estão impactando as discussões sobre energia verde no estado é a utilização do biometano nas redes de gás canalizado, modalidade de distribuição de energia que não para de avançar no Paraná. Em 2025 foi anunciado que a região de Londrina vai receber investimentos de cerca de R$ 100 milhões e 70 quilômetros de dutos de abastecimento para residências, comércio, indústria e veículos.

A Agepar (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná) está na fase de estudos para regulamentar a injeção do biogás processado na rede de gás natural.

“A utilização do biometano na rede de distribuição de gás natural apresenta um conjunto de desafios regulatórios, técnicos, comerciais e operacionais”, explica a chefe da Coordenadoria de Qualidade dos Serviços da Agepar, Mariana Ribeiro Facundo de Souza, à Agência Estadual de Notícias. “Embora existam normativas federais para especificações e padrões do biometano, os requisitos técnico-operacionais para a conexão e injeção na rede dependem de regulamentação complementar no Estado”, explica.

Imagem ilustrativa da imagem Energia limpa depende do amadurecimento da legislação
| Foto: Roberto Custodio

Um dos empresários que aguardam a consolidação destas normativas para simplificar seu acesso ao combustível verde é Fábio Bearzi, diretor de inovação da Aesa - uma fabricante de molas, grampos e parafusos para veículos pesados instalada desde 1950 em Cambé - e painelista do EF 25.

A empresa utiliza biometano desde 2021. O novo combustível substitui parte do consumo do gás liquefeito de petróleo (o GLP, o mesmo dos botijões domésticos) destinado à geração da energia que aquece seus fornos. Por enquanto, o biometano chega por caminhões - também movidos pelo combustível renovável a partir da decomposição da torta de filtro, vinhaça e palha. O fornecimento é ininterrupto e está sob responsabilidade da Geo Biogas & Carbon, que produz o biometano dos resíduos da atividade canavieira, em Tamboara, na região de Paranavaí.

A participação do biogás no consumo industrial da região poderá deslanchar com a autorização legal de injetar o biocombustível na rede pensada originalmente para o gás natural, cerca de 10 vezes mais poluente. O caso da Aesa é um exemplo do impacto que a canalização pode provocar a médio prazo. “A gente ainda não converteu 100% do GLP em fonte renovável. Mas estamos aumentando gradualmente e com a distribuição canalizada vamos conseguir alcançar 100% da operação com biometano”, informou ao público que foi ao Aurora.

O transporte em dutos e o uso intensivo na indústria é a aposta de muitos especialistas para que o número de usinas de biometano se multiplique em um território praticamente inexplorado. Em evento promovido este mês em Brasília pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), o diretor-executivo da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), Tiago Santovito, informou que o Brasil produz hoje 1 milhão de m³/dia de biometano em apenas 15 plantas autorizadas, apenas uma fração do potencial, calculado em 120 vezes maior que o atual.

Contato com multinacionais estimulou empresário de Cambé a investir pesado em sustentabilidade

Algumas histórias demonstram como os esforços de competitividade de uma empresa estão mais do que nunca associados à busca por sustentabilidade e inovação.

É o caso da Aesa Automolas e Equipamentos Ltda, uma indústria instalada desde 1950 em Cambé por um alemão que ainda adolescente ajudou a desbravar o norte do Paraná quase um século atrás.

O fundador Ronald Tkotz jamais poderia imaginar que ao completar 75 anos, a Aesa teria planos plenamente realizáveis de se tornar uma empresa de baixo impacto ambiental mesmo produzindo peças de aço para caminhões para o mercado brasileiro e para os países vizinhos.”Costumo dizer que quando a terceira geração assumiu a empresa, nós pegamos um Dodgão V8, que gastava muito gás e muita energia elétrica”, lembra Fábio Bearzi, atual diretor de inovação que foi um dos painelistas do Encontros Folha realizado esta semana no Aurora Shopping.

Fábio Bearzi, atual diretor de inovação da Aesa
Fábio Bearzi, atual diretor de inovação da Aesa | Foto: Roberto Custodio

A Aesa produz molas de suspensão que dão estabilidade e dirigibilidade para caminhões pesados, além de grampos, parafusos e pinos que conectam os amortecedores aos chassis. A empresa consome cerca de 28 mil MWh por ano. “Um quinto disso é na forma elétrica, que usa para movimentar motores, aquecedores elétricos e indutores, por exemplo.”

Em 2018, as ambições de sustentabilidade levaram a empresa a aproveitar a novidade do mercado livre de energia para “limpar” sua operação. “Decidimos comprar somente energia de fontes renováveis. “Custava um pouquinho mais caro, mas tinha um certificado que garantia sua procedência, que poderia ser eólica, solar ou hidrelétrica.”

Este passo adiantaria um processo que se intensificou no ano seguinte, após um evento de sustentabilidade da Scania, a multinacional sueca que produz veículos pesados no Brasil desde 1958 e que é parceira estratégica da Aesa.

Bearzi conta que o evento serviu para dar um recado claro para todos os fornecedores da marca. Dali em diante, o nível de exigência por sustentabilidade subiria um degrau. “Na conversa conosco, eles disseram: ‘olha vocês produzem com qualidade, a entrega é boa, mas agora vamos dar preferência para fornecedores que se empenharem em programas de sustentabilidade’. Ou seja, com iguais condições de preço e qualidade, a empresa mais sustentável terá prioridade para parceria.”

A sensação que tomou conta dos gestores da empresa é que usar os 20% da matriz de fontes renováveis era pouco. “Aí intensificamos o uso de energia elétrica, aumentamos a participação de fornos elétricos, fizemos um forno híbrido, metade gás, metade eletricidade. Também investimos em painéis fotovoltaicos, cobrimos nosso telhado com eles. Mas ainda assim, não parecia o suficiente.”

Uma empresa especializada em soluções de descarbonização foi contratada. “Pensamos em trocar o GLP que abastecia os queimadores por álcool. Trouxemos engenheiros de combustão e eles perceberam que a troca era inviável porque mudaria muito a geometria dos fornos.”

Cinco anos atrás, Bearzi leu uma notícia que mudaria os rumos da empresa. Em Curitiba, parte da frota seria movida a biometano, a forma mais avançada do biogás. “Fui pesquisar porque não sabia nada sobre o assunto e percebi que o biometano era mais adequado aos fornos que o próprio GLP. Eles eram pensados para serem abastecidos por gás natural e como aqui não tínhamos um gasoduto, acabamos improvisando o gás de cozinha.”

O uso do biometano se tornou uma meta clara. Primeiro, se pensou na construção de um biodigestor no próprio terreno. O que o executivo não sabia é que havia uma solução mais prática à mão, com uma unidade produtora a menos de duas horas de caminhão da fábrica. “Foi uma surpresa muito agradável, uma obra do destino.” Desde 2021, a Aesa é abastecida com o combustível verde da Geo Bio Gas & Carbon.

Este ano, outro contato com uma multinacional, a luxemburguesa ArcelorMittal, fez a Aesa dar um salto. “A eletricidade já era de fonte renovável, o aquecimento dos fornos de biometano. Estávamos 100% limpos em energia. Mas ainda faltava a gente resolver a pegada de carbono do aço que utilizávamos. A produção do aço demanda muita energia. Então começamos um trabalho com nossa fornecedora, que é líder global”, explica o empresário. “Eles nos escolheram para desenvolver um aço de pegada de baixo carbono chamado Excarb, o mais limpo do mercado e assim fechamos o ciclo de descarbonização”. O aço que se tornam as peças vendidas para as montadoras agora é 100% reciclável. Pelo cálculo de Bearzi, a descarbonização desde 2018 da Aesa equivale a ação de 26 mil árvores de 30 anos de idade no meio ambiente. “Nossa pegada de carbono hoje equivale a 20% do que era em 1970, podemos avançar para 10% a médio prazo”, compara. “Meses atrás uma outra grande montadora europeia que atua no Brasil começou a conhecer nosso case e já demonstrou interesse em comprar nossas molas. Estamos colhendo os frutos.”(L.F.M.)

Estado poderia suprir 26% de sua energia com biometano de resíduos agrícolas

Na década de 1980, o filme "De Volta para o Futuro" levou milhões de pessoas ao cinema em todo o mundo que assistiram maravilhadas à aventura a bordo de um DeLorean. O carro esportivo transformado em máquina do tempo pelo cientista Doutor Brown era adaptado com o Mr. Fusion, o reator de fusão que transformava lixo em energia.

Isabela Bolonhesi, coordenadora de Meio Ambiente, ESG e Sustentabilidade da Geo Biogas & Carbon
Isabela Bolonhesi, coordenadora de Meio Ambiente, ESG e Sustentabilidade da Geo Biogas & Carbon | Foto: Roberto Custodio

Quarenta anos depois da estreia do sucesso dirigido por Robert Zemeckis, o que parecia uma loucura de ficção científica tornou-se realidade. O Mr. Fusion do futuro é o biodigestor que faz a decomposição da matéria orgânica de forma anaeróbica, transformando resíduos que iriam para o lixo em biogás e em biometano, fontes de energia renováveis que podem ser utilizadas para cozinhar, gerar eletricidade, aquecimento e abastecer veículos.

O biometano, resultado do processo de purificação do biogás, é apontado como o combustível do futuro por substituir adequadamente os combustíveis fósseis, como o gás natural e o diesel, com a vantagem da pegada negativa de carbono.

O desenvolvimento dessa tecnologia permitiu enxergar oportunidades de negócios onde antes só se via lixo. Se 100% dos resíduos gerados no mundo hoje fossem convertidos em biogás, a produção global desse combustível seria de um trilhão de metros cúbicos por ano, reduzindo consideravelmente a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.

“No Brasil, nós temos uma capacidade de gerar mais de 130 milhões de metros cúbicos de biometano por dia. Isso, a partir do setor sucroenergético, do agronegócio e dos resíduos sanitários”, ressaltou a coordenadora de Meio Ambiente, ESG e Sustentabilidade da Geo Biogas & Carbon, Isabela Bruna de Tavares Machado Bolonhesi.

A coordenadora esteve, na última terça-feira (9), entre os palestrantes convidados para participar do 25º Encontros Folha, que teve como tema “Energia que Transforma: Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade Movendo o Futuro”.

Na sua apresentação, Bolonhesi destacou também as potencialidades energéticas do Paraná, que aparece em quarto lugar no país em capacidade de produção de biometano. “Isso porque o Paraná tem como base econômica o setor do agronegócio”, explica.

Segundo o Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social), em 2024, a agropecuária teve 9% de participação na composição do PIB (Produto Interno Bruto) paranaense, com um valor acumulado de R$ 64,7 bilhões.

A produção de resíduos da atividade agroindustrial no Estado é proporcional à movimentação financeira e decorre daí a expressão “pré-sal caipira”, utilizada para qualificar o potencial do aproveitamento de resíduos da agropecuária para a produção de biogás e biometano.

“Se nós olharmos, por exemplo, apenas para a suinocultura, nós temos um potencial de mais de 38 milhões de metros cúbicos de biometano por ano. Ou se eu olho para a avicultura, são mais de 120 milhões em metros cúbicos de biometano por ano, convertendo 100% desses resíduos”, exemplifica Bolonhesi.

Hoje, se toda a matéria orgânica resultante das atividades do setor agroindustrial paranaense fosse destinada à geração de biometano, a produção desse combustível no Estado seria de dois milhões de metros cúbicos diários. Volume capaz de suprir 26% da necessidade energética do Paraná.

Por enquanto, a maioria dos biodigestores instalados no Estado é uma iniciativa de produtores rurais que aproveitam os resíduos para gerar energia utilizada na propriedade. Elevar a produção para uma escala industrial de forma que o biogás e o biometano tornem-se acessíveis a toda população, assim como acontece com o gás de cozinha, depende de tecnologia.

É nessa frente que a Geo tem trabalhado. Com uma produção em escala industrial e comercial de biometano e biogás no Brasil, a empresa mantém uma planta em funcionamento em Tamboara, no Noroeste do Paraná, além de outras espalhadas pelo país e há projetos de expansão.

Atualmente, o foco da empresa é o biometano, utilizado em substituição ao gás natural e ao diesel, mas há tecnologia disponível para produzir outros tipos de combustíveis considerados avançados, como o SAF, combustível sustentável de aviação, e o SMF, combustível marítimo sustentável, e também para a produção de hidrogênio e amônia verdes. “Essa diversificação é o que o biometano promove, mas vejam só vocês. Além de a gente valorizar energeticamente os resíduos, produzir energia sustentável, produzir combustíveis avançados, capazes de reduzir em 90% as emissões atmosféricas dos combustíveis fósseis, temos uma planta que não produz resíduos porque 100% dos resíduos que entram nas nossas unidades são convertidos em biogás e em biofertilizante”, ressalta Bolonhesi.

Ao devolver para os seus fornecedores de resíduos o biofertilizante, a empresa fecha 100% do ciclo da economia circular. “O biometano no modelo de economia circular não é só uma redução de desperdício, é uma geração de oportunidades.”(S.S.)

Especialista defende transição energética justa e acessível a todos

A transição energética, movimento global que busca descarbonizar a matriz elétrica, é um processo que deve ser justo e acessível a todos e não compete a determinados setores da sociedade, mas à população como um todo. É isso o que defende a professora do curso de engenharia elétrica da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Juliani Piai Paiva.

Doutora em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas, pesquisadora do NAPI (Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação) Energia Solar e líder do Laboratório de Energia e Desenvolvimento Sustentável da UEL, Paiva integrou o time de painelistas convidados para o 25º Encontros Folha.

Juliani Piai Paiva, professora do curso de engenharia elétrica da UEL (Universidade Estadual de Londrina)
Juliani Piai Paiva, professora do curso de engenharia elétrica da UEL (Universidade Estadual de Londrina) | Foto: Roberto Custodio

Em sua palestra, a especialista falou sobre as perspectivas e os desafios da geração de energia fotovoltaica no Brasil. Segundo ela, o sucesso da mudança depende do esforço conjunto de toda a sociedade, incluindo indústrias, agronegócio e edificações comerciais e residenciais, sem deixar de fora comunidades que, historicamente, ficaram à margem, como indígenas e quilombolas. “Precisamos todos estar na mesma direção para que a coisa funcione.”

No processo de transição energética, Paiva destacou o papel da energia solar fotovoltaica como a principal força motriz, em razão de sua versatilidade e facilidade de instalação.

A docente apresentou um gráfico da IEA (International Energy Agency) com as perspectivas do mercado de energia no mundo em três cenários distintos. Nos dados mais recentes, do ano de 2023, o Cenário de Políticas Declaradas (STEPS), o Cenário de Compromissos Anunciados (APS) e o cenário de emissão zero (NZE) projetam avanço na geração de energia solar. “Em todos os cenários, desde o menos otimista até o net zero, que seria o melhor de todos eles, nós podemos perceber que a perspectiva de crescimento para a geração fotovoltaica até 2050 é grande”, diz Paiva.

O Brasil tem 18 GW (gigawatts) de potência instalada de geração fotovoltaica centralizada e 42 GW de potência instalada em GD (geração distribuída). “O nosso sistema de geração fotovoltaica, nossa diversificação da matriz elétrica, tem caminhado de uma forma muito positiva. A matriz elétrica brasileira é 80% renovável. Estamos em destaque no mundo em transição energética e estamos crescendo muito na geração fotovoltaica”, avalia a professora.

No setor da indústria, Paiva concluiu, a partir de um estudo de caso de uma indústria alimentícia de grande porte, instalada na região de Londrina, que para as empresas enquadradas no Grupo A de tarifação, o mercado livre de energia demonstrou ser uma opção mais vantajosa economicamente do que o investimento na instalação de placas solares.

A adesão ao mercado livre oferece um payback mais rápido do que a implantação de um sistema fotovoltaico em larga escala. Além da economia, o mercado livre permite que as indústrias comprem energia de fontes renováveis, como a solar ou a eólica, o que reforça o compromisso da empresa com a sustentabilidade.

Para as empresas classificadas no Grupo B de tarifação, a energia fotovoltaica é uma excelente alternativa, possibilitando uma redução significativa nos custos com o insumo.

No eixo do agronegócio, setor crucial da economia, especialmente no Paraná, a energia fotovoltaica também tem demonstrado seus benefícios. Um dos destaques no Estado apontados por Paiva é o programa Renova PR (Paraná Energias Renováveis), que incentiva a adoção de sistemas de geração renovável nas propriedades rurais.

Em quatro anos de existência, o programa contabiliza quase 40 mil ligações em GD, com um investimento de R$ 5,8 bilhões, mas também começa a crescer o montante aplicado em sistemas de biodig.

Paiva lembrou que há inúmeros exemplos de produtores rurais que ao reduzir significativamente seus gastos com energia, puderam direcionar os recursos para a ampliação de seus negócios e aumento da produção.

No âmbito das edificações, a especialista enfatizou a importância de ações de eficiência energética como um primeiro passo antes de se instalar um sistema fotovoltaico. Medidas simples, como o uso de lâmpadas de LED, a melhoria da ventilação e da envoltória dos edifícios, ressaltou Paiva, podem reduzir a demanda de energia e permitir a instalação de um sistema fotovoltaico de menor potência e mais barato.

Apesar dos avanços, a professora pontuou alguns desafios e particularidades da energia fotovoltaica, como a intermitência da geração - com picos ao meio-dia - e a necessidade de ajustes na curva de demanda.

Paiva também alertou sobre os cuidados necessários para garantir a eficiência dos sistemas, como a atenção ao sombreamento, à inclinação dos painéis e à sua limpeza periódica.

A palestrante destacou ainda o grande potencial do Paraná para a geração fotovoltaica, especialmente na Região Norte do Estado. Com base em um mapeamento detalhado, Paiva identificou Ribeirão Claro, no Norte Pioneiro, como a cidade ideal para a implantação de uma grande usina, que poderia, no futuro, servir como um hub para a produção de hidrogênio verde ou para o armazenamento de energia.

No encerramento de sua apresentação, a professora salientou a importância da inclusão de toda a sociedade no processo de transição energética e citou como exemplo o projeto realizado em parceria com a Copel para geração e transmissão de energia na reserva indígena do Apucaraninha. “A gente está pensando em uma descarbonização. Essa descarbonização é global. Não adianta um deixar de emitir e o outro continuar emitindo. A gente precisa de um conjunto para que a coisa dê certo porque a emissão no ar é de todo mundo.” (S.S.)

ENQUETE

Os participantes do 25º Encontros Folha comentam sobre a importância do tema

Imagem ilustrativa da imagem Energia limpa depende do amadurecimento da legislação
| Foto: Roberto Custodio

Essa questão da energia renovável, fontes alternativas, como a tecnologia avança em relação a isso, na minha visão é algo que está aumentando cada vez mais, por diversos fatos, tanto pelo próprio mundo como está hoje como de políticas públicas. Vim porque meu TCC é nesta área e conteúdo que são faladas aqui vão ser importantes para eu conseguir desenvolver o meu trabalho.

Pedro Henrique Cho, estudante de Engenharia Elétrica da UEL

Imagem ilustrativa da imagem Energia limpa depende do amadurecimento da legislação
| Foto: Roberto Custodio

O tema é de suma importância para o setor industrial e no geral. Hoje vivemos problemas energéticos e a sustentabilidade está à tona. Esse tema tem tudo a ver com o momento. Não só o Brasil, mas o mundo todo, tem que buscar novas formas de energia e de utilização. A indústria é um grande consumidor de energia e ela tem que se adequar às novas linhas de obtenção de energia. Não podemos ficar à mercê de só uma fonte energética.

Ricardo Candido da Silva, presidente do SindiMetal Norte do Paraná

Imagem ilustrativa da imagem Energia limpa depende do amadurecimento da legislação
| Foto: Roberto Custodio

É um tema atual, principalmente neste momento em que falamos em transição energética, descarbonização, inclusive neste setor de energia. É um tema importante, principalmente na forma que a Folha de Londrina está trazendo, que é a inovação tecnológica junto só vai de encontro à essa agenda que está super latente.

Ludmila Vonton Dias, Consultor de ESG e Sustentabilidade

Imagem ilustrativa da imagem Energia limpa depende do amadurecimento da legislação
| Foto: Roberto Custodio

Discutir temas tão importantes como esse é fundamental. Precisamos realmente debater, discutir, avançar, melhorar e crescer nestas produções de energias limpas. Precisamos discutir, amadurecer e avançar neste setor de energia limpa. Temos que ter uma somatória de ações visando a qualidade de vida do ser humano, evitando o efeito estufa, as grandes catástrofes, intempéries repentinas. E tudo isso começa aqui, no debate, ouvindo doutores, pesquisadores. O que se tira de um encontro desses a gente tenta aplicar nos projetos da cidade.

Cláudio Bravim, presidente do IPPUL

Imagem ilustrativa da imagem Energia limpa depende do amadurecimento da legislação
| Foto: Roberto Custodio

É fantástico quando um veículo como a Folha de Londrina entende as temáticas dos principais problemas do mundo. A energia hoje, somente pela questão da demanda, já é um problema gigante, ainda mais atrelado com a questão do movimento verde. Isso tem tudo a haver. Cada vez mais a questão da descarbonização é um andamento importante. Não tem mais volta. O mundo requer essas inovações. E discutirmos quais são as nossas fontes alternativas é muito importante.

George Hiraiwa, presidente do Conselho Administrativo do Sicoob Ouro Verde

Imagem ilustrativa da imagem Energia limpa depende do amadurecimento da legislação
| Foto: Roberto Custodio

É o tema do momento. Estamos vendo de forma generalizada, o Paraná inclusive, de vanguarda, exatamente por isso. O tema chama a atenção. A Folha é muito feliz na escolha dos temas dos Encontros, mas esse, não tenho a menor dúvida, é de uma importância muito grande. É uma pauta que tem que ser discutida, principalmente pelas mudanças que estamos tendo.

J.B. Faria, radialista e comentarista da Rádio Paiquerê


Colaborou Aline Machado Parodi - Especial para a FOLHA

mockup