Endividamento cresce e atinge 92% das famílias londrinenses
Apesar da maior pressão sobre a renda e da alta nas contas em atraso, o percentual de famílias sem condições de pagar as dívidas caiu 9%
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Apesar da maior pressão sobre a renda e da alta nas contas em atraso, o percentual de famílias sem condições de pagar as dívidas caiu 9%

A pressão sobre o orçamento das famílias de Londrina voltou a subir no terceiro trimestre de 2026. Segundo os dados da PEIC Londrina (Pesquisa de Comprometimento de Renda e Inadimplência), 92,2% das famílias do município possuem algum nível de comprometimento de renda, uma elevação em relação aos 91,4% registrados no segundo trimestre.
O estudo, realizado pelo NuPEA (Núcleo de Pesquisas Econômicas Aplicadas), da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), mostra que o avanço do endividamento também veio acompanhado de alta no indicador de atrasos. Entre os entrevistados, 42,8% afirmaram ter pelo menos uma conta em atraso. No trimestre anterior, eram 36,2% o índice de inadimplentes.
Apesar do aumento do percentual de endividados, houve um alívio na crise financeira das famílias londrinenses. A proporção de consumidores que não conseguirão quitar suas dívidas caiu de 14,8% no segundo trimestre para 9,3%. Além disso, 58,9% dos inadimplentes afirmaram que conseguirão honrar os compromissos, ao menos parcialmente.
Comparada aos índices nacionais, a cidade de Londrina apresenta crédito mais disseminado e inadimplência mais frequente, porém, menos severa do que a média do país. No Brasil, o comprometimento de renda é de 82,0% e o índice de contas em atraso, de 29,8%, mas a insolvência chega a 12,3%.
Tipos de dívidas
Mais da metade das dívidas referem-se ao cartão de crédito, compondo 52,0%. A prestação da casa própria e do carro aparecem com 10,3% e 7,6%, respectivamente. E volta a chamar a atenção o item “outras dívidas”, que subiu de 25% para 28,1% entre o segundo e o terceiro trimestre. Embora a pesquisa não especifique as dívidas com bets, elas podem ser encaixadas nessa categoria.
A percepção quanto à gravidade do endividamento reflete um cenário de aperto no orçamento. Entre as famílias que possuem dívidas, 68,6% declaram-se "muito endividadas", 30,5% consideram-se "medianamente endividadas" e apenas 0,6% afirmam estar "pouco endividadas".
A pesquisa evidencia um peso desproporcional do endividamento sobre a população de menor renda. Entre as famílias com rendimento de até dez salários mínimos, 70,7% se dizem muito endividadas, contra apenas 21,4% entre aquelas com renda superior a esse patamar.
A inadimplência segue o mesmo recorte socioeconômico. Entre as famílias com renda até dez salários mínimos, 36,8% possuem contas em atraso contra 18,2% de inadimplentes com renda mais elevada.
Quando questionados sobre a perspectiva de quitar as pendências, 42,5% das famílias estimam que permanecerão endividadas por mais de um ano, outras 25,6% projetam quitar os pagamentos em um período de três a nove meses, 14,8%, entre seis meses e um ano e 13,3% acreditam que serão capazes de liquidar os débitos em até três meses. Os que não responderam ou não souberam responder, somaram 3,3%.
Um dos pontos positivos apontados pelo levantamento foi a recuperação da restrição ao crédito. O percentual de consumidores negativados caiu de 30,7% no segundo trimestre para 17,5% no último período analisado. No primeiro trimestre do ano, esse índice era de 28,0%. O recuo, de 13,2 pontos percentuais ou 43% de redução relativa, sinaliza um movimento de renegociação e recuperação da capacidade de crédito do consumidor londrinense.
A PEIC Londrina tem como objetivo orientar os setores do comércio, bens, serviços e turismo que dependem do crédito como ferramenta estratégica de vendas. A conclusão do levantamento do terceiro trimestre de 2026 é de um cenário de maior pressão financeira e utilização do crédito, mas com melhora consistente na capacidade de recuperação das famílias, afastando o risco de insolvência generalizada no município.
“O nível de comprometimento de renda, além de fortes implicações econômicas em termos pessoais e familiares, e dos graves problemas psicológicos e sociais que lhe estão associados, afeta de forma direta o setor real da economia, seja junto às instituições de crédito, nas vendas do varejo e, indiretamente, na própria oferta de postos de trabalho”, destacou o NuPEA.
Paraná
O cenário do orçamento familiar no Paraná revela um contraste. O Estado figura na nona posição nacional em endividamento, mas fica em segundo lugar entre os menores índices de inadimplência do país. Em julho, 87,2% dos lares paranaenses possuíam algum tipo de compromisso financeiro, enquanto somente 17,9% acumulavam contas em atraso. Os indicadores constam na PEIC realizada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) em parceria com a Fecomércio PR (Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo do Paraná).
Depois de subir no início do ano, o volume total de dívidas estabilizou-se e manteve-se no mesmo nível no último trimestre. O alerta, no entanto, vem do avanço contínuo das contas em atraso registrado nos últimos dois meses. A fatia de inadimplentes subiu de 16,7% em junho para 17,9% em julho, um salto de 5,9 pontos percentuais frente aos 12,0% apurados em julho de 2025, enquanto a parcela de famílias que declaram não ter condições de liquidar seus débitos atrasados subiu de 4,3% para 4,9%.
O cartão de crédito lidera isolado como o principal meio de endividamento na região, alcançando 90,1% das famílias com débitos ativos. Por estar diretamente ligado ao consumo do dia a dia, a prevalência do cartão esclarece como o alto nível de compromissos financeiros consegue conviver com taxas de calote historicamente reduzidas.
Modalidades de prazo mais longo aparecem em seguida, como o financiamento de veículos (9,2%) e o imobiliário (6,8%). O pagamento via carnês corresponde a 7,7% dos registros, e o crédito consignado e o crédito pessoal, a 3,3% cada um.


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


