Endividamento atinge maior nível desde 2013
São 64% dos brasileiros com dívidas em junho e menor otimismo em relação à capacidade de pagamento, ainda que mês registre primeira queda no ano de famílias com débitos atrasados
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de julho de 2019
São 64% dos brasileiros com dívidas em junho e menor otimismo em relação à capacidade de pagamento, ainda que mês registre primeira queda no ano de famílias com débitos atrasados
Fabio Galiotto - Grupo Folha 

O índice de endividamento dos brasileiros subiu de 63,4% em maio para 64,0% em junho, quando atingiu o maior resultado desde julho de 2013, segundo a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) divulgada na terça-feira (9) pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Foi o sexto mês seguido de crescimento e as famílias mostraram ainda menor otimismo na própria capacidade de pagamento.
Houve maior esforço em quitar dívidas em atraso, com a redução de 24,1% em maio para 23,6% em junho. Foi a primeira queda desde dezembro do ano passado, época em que a maioria dos trabalhadores da ativa recebem o 13º salário. O problema é que o brasileiro continua sem capacidade de consumo, diante de um cenário problemático principalmente na geração de trabalho e renda.
Na comparação anual, o índice dos muito endividados permaneceu em 13,0%. Entretanto, aumentou de 22,4% para 23,5% os mais ou menos com dívidas e de 23,2% para 27,6% os com poucos débitos. É a fatia dos que conseguem colocar a cabeça no travesseiro sem pensar nas finanças que diminuiu drasticamente, de 41,2% para 35,8%, no mesmo comparativo.
Quando se considera o tipo de endividamento, a maior alta segue no cartão de crédito, que foi de 76,3% em junho de 2018 para 78,8% no mês passado. Houve retração nos financiamentos abertos de automóveis de 11,2% para 10,5% e alta nos residenciais, de 8,5% para 8,8%, no mesmo comprativo, conforme a Peic.
O presidente da CNC, José Roberto Tadros, prefere destacar que o comprometimento médio de renda com o pagamento de dívidas ficou estável, quando comparado a 2018, assim como o percentual de famílias que se consideram muito endividadas. “O percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso, ou seja, inadimplentes, apresentou a primeira queda do ano em junho e um recuo em relação a 2018”, diz. “Também é possível observar uma melhora no perfil do endividamento, com maior participação de modalidades de crédito que apresentam menor custo, prazos mais longos e garantias atreladas à sua concessão”, completa.
Por outro lado, o professor de economia Sidnei Pereira do Nascimento, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), afirma que o indicador de endividamento se forma em médio prazo e representa a longa crise econômica que o País enfrenta, sem que se apresente uma expectativa de recuperação sólida. “Não saímos do fundo do poço. É um fenômeno que vem da piora em 2014, 2015 e 2016. Depois ficamos no fundo do poço em 2017 e 2018 e não vamos sair neste ano, caso se confirme o crescimento do PIB menor do que 1%.”
Como outros indicadores que medem o consumo do brasileiro estão em baixa, Nascimento não enxerga recuperação sem uma política mais clara de desenvolvimento para o País. “Não é nossa situação atual. As pessoas começam a gastar as gordurinhas que têm na caderneta de poupança e chega um momento em que precisa se endividar”, cita o economista.



