São Paulo - Um nível de endividamento já alto e foco errado estão entre os principais motivos pelos quais alguns programas do governo para aumentar o crédito para a população de renda baixa - e mesmo iniciativas privadas - não deram certo. A conclusão faz parte de uma pesquisa elaborada pela consultoria Booz Allen Hamilton para uma instituição financeira, que será apresentada no Ciab 2004, o congresso de tecnologia do setor financeiro, que começa no próximo dia 2 em São Paulo.
O endividamento do consumidor das classes C e D já está em R$ 1.050 em média, superando a renda média de R$ 850 por mês. ''Desde que as classes C e D começaram a ter acesso ao crédito, a partir de 1996, esses consumidores 'apanharam' muito'', diz o vice-presidente da consultoria, Jorge Maluf Filho. ''Por isso, hoje estão muito mais seletivos na hora de contrair empréstimos.''
Com o mercado de alta renda próximo da saturação, o consumidor de renda baixa representa um grande potencial de crescimento e economia de escala para o agente financeiro, diz a pesquisa, feita a partir de 1,1 mil entrevistas em quatro regiões metropolitanas. O mercado de crédito para esse público tem um potencial de R$ 220 bilhões por ano, o equivalente à renda de 18 milhões de famílias (2 a 8 salários mínimos), ou 65 milhões de pessoas.
Entre os principais segredos do sucesso de experiências como as da Casas Bahia ou do Grupo Silvio Santos estão o respeito e proximidade com o cliente. ''Aqui eu me sinto bem'', diz a aposentada Maria Pereira de Oliveira, que esta semana fechava uma compra de cama, colchão, guarda-roupa e rack de mais de R$ 1 mil em uma loja da rede Casas Bahia em São Paulo. Com renda mensal de R$ 260, ela pagará 15 prestações de R$ 60. ''Se a gente atrasa um pouquinho a prestação, não tem juros.''
As prestações fixas e a agilidade na concessão do crédito também foram apontadas como elementos decisivos. ''Compro preferencialmente na Casas Bahia por causa da facilidade na burocracia'', diz o garçom José Tenório Neto, que paga com um salário de R$ 600 um guarda-roupa de R$ 1,4 mil em 15 vezes.

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