O alarde que o governo fez para divulgar o Programa de Microcrédito no final de junho foi inversamente proporcional ao anúncio da sua regulamentação um mês depois. Isto porque, a promessa inicial de empréstimos de até R$ 600,00 para pessoas que movimentassem, no máximo, R$ 1 mil em contas correntes simplificadas foi reformulada. O público-alvo continuou o mesmo, mas o crédito caiu para R$ 200,00, incluindo como candidatos os poupadores com saldo de até R$ 100,00.
Atualmente, a Caixa Econômica Federal tem 500 mil correntistas que se encaixam neste perfil em todo País. Somente na região de Londrina, são sete mil. De acordo com o gerente de mercado da Caixa em Londrina, José Roberto Matheus, a instituição dispõe de R$ 100 milhões para realizar microempréstimos a partir do final deste mês. ''Nossa expectativa é atender 380 mil pessoas no primeiro momento e 2,3 milhões até dezembro'', adiantou.
Para abrir uma conta simplificada é preciso apenas apresentar a carteira de identidade (RG), o Cadastro de Pessoa Física (CPF), um comprovante de residência ou uma declaração de próprio punho. Para o governo, as maiores vantagens do programa de microcrédito são os juros baixos (2% ao mês mais IOF) e a desobrigação de um comprovante de renda. Com isso, pretende-se aumentar o número de pessoas envolvidas no processo de bancarização que até então eram excluídas pela burocracia.
À primeira vista, parece que essa é a solução para milhões de pessoas, mas não é bem assim. O microcrédito só será oferecido a titulares de contas abertas, no mínimo, há 90 dias e que não tenham restrições no Serasa e Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). O prazo de pagamento é de quatro meses e, a partir de setembro, o contrato poderá ser feito até mesmo em correspondentes bancários como supermercados, farmácias e lotéricas.
Em Londrina, R$ 200,00 não é suficiente para alimentar uma família. De acordo com estudo do economista Flávio Oliveira dos Santos, em julho o valor médio da cesta básica para quatro pessoas foi R$ 382,06. Neste caso, o trabalhador teria que ganhar, pelo menos, 1,59 salário mínimo. ''O pouco para uns é muito para outros. Se levarmos em conta a situação de um gari ou uma costureira, por exemplo, esse dinheiro será útil para despesas básicas ou aquisição de um eletrodoméstico'', frisou Matheus.
Se o microcrédito tivesse sido liberado em maio, Marcelo Daniel Teixeira teria uma boa oportunidade de economizar. Naquela época, ele emprestou R$ 400,00 de um banco para saldar o déficit no orçamento doméstico a um juro de 5,5% ao mês. Hoje, ele paga a última das quatro parcelas da dívida e diz que, se for preciso, recorrerá novamente ao banco porque é mais barato e seguro. ''Tentei fazer negócio com uma financeira, mas havia muita exigência. No banco, isso não aconteceu porque já sou cliente'', explicou.

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