Brasília - O mercado de crédito para a pessoa física já emite sinais de desaceleração, na avaliação do Banco Central (BC). Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, os números mostram que as famílias continuam tomando empréstimos, mas em ritmo menor que o visto há alguns meses. Para ele, o aumento dos juros básicos (Selic) e as medidas prudenciais adotadas pelo governo nos últimos meses têm desestimulado os clientes a tomar financiamentos. Nas transações voltadas às empresas, porém, o ritmo continua forte, diante da demanda interna aquecida e do menor uso do mercado de capitais.
De acordo com os dados divulgados ontem pelo BC, o volume de operações de crédito em maio aumentou 2,6% na comparação com abril, somando R$ 1,044 trilhão. O montante é equivalente a 36,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior nível desde janeiro de 1995. O ritmo de crescimento entre as famílias, no entanto, foi menor: de 1,4% quando excluídas as operações de leasing. ''Há uma clara acomodação no crédito à pessoa física'', disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.
Dado preliminar de junho reforça a tese, já que o crescimento no mês é de 1,3% até o dia 12. Em 2007, na média, o crédito para a pessoa física teve crescimento mensal de 2,10% e nos quatro primeiros meses de 2008, 1,86%.
Altamir explicou que a alta do juro iniciada em abril e medidas adotadas pelo BC, como o compulsório dos depósitos de empresas de leasing, têm elevado o custo de captação dos bancos, o que aumenta o juro cobrado nos empréstimos. ''Os juros subiram e as famílias perceberam'', disse.
Outro fator que ajuda a arrefecer a demanda é a interrupção do aumento do prazo dos empréstimos. Em maio, os financiamentos para as famílias tinham 457 dias na média, mesmo tempo de abril. Esse é o primeiro mês em que o prazo não cresce desde janeiro de 2006.
O economista da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, acredita que os prazos devem começar a cair brevemente. Segundo ele, bancos e o varejo tendem a emprestar por menos tempo diante das dúvidas quanto ao período de aperto monetário realizado pelo BC. ''Se o banco não tem idéia de quanto o juro vai subir, emprestar por muito tempo aumenta o risco da operação'', explicou.
Um terceiro fator é o esgotamento de algumas linhas de crédito. Isso acontece, sobretudo, no consignado - aquele com desconto em folha de pagamento e que é voltado aos trabalhadores formais e aposentados. Segundo Altamir Lopes, esse segmento teve expansão forte nos últimos anos, o que reduz o número de potenciais tomadores de novas operações.
Empresas
A despeito do aumento do juro, o mercado de crédito voltado às pessoas jurídicas continua com expansão expressiva. Em maio, esse segmento cresceu 3,6%, acima da média do restante do mercado. A taxa de juro para esses clientes aumentou 0,6 ponto porcentual ante abril, para 26,9% ao ano.
O chefe do Depec explica que as empresas continuam tomando recursos para aumentar a capacidade de produção. Entre as que têm liderado a procura por crédito, companhias de telecomunicações, transporte e veículos têm demandado principalmente dinheiro para capital de giro. Na agricultura, tem crescido a busca por linhas para custeio da produção e comercialização. No comércio, destaque para os vendedores de alimentos e bebidas, automóveis e máquinas e equipamentos.

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