Agência Folha
De Buenos Aires
A desvalorização do real está provocando uma revoada de empresas da Argentina para o Brasil. São companhias, em especial multinacionais, que têm orientado seus investimentos em busca dos custos de produção mais baixos agora oferecidos pelo vizinho. Os especialistas falam em uma diferença de custos ao redor de 30% a favor do Brasil.
Só nos últimos dias, duas grandes multinacionais anunciaram o fechamento de suas fábricas na Argentina e a transferência ao Brasil. A indústria de pneus norte-americana Goodyear encerrou suas operações, com a demissão de 900 funcionários. Um porta-voz da empresa confirmou que a mudança se deve ‘‘a uma questão de custos’’.
A fabricante de conservas Cica, da Unilever, tomará o mesmo rumo em 2000. Ambas continuarão abastecendo o mercado argentino à base de importações. Na quarta-feira, foi a vez da Renault dizer que está transferindo sua produção de motores da cidade argentina de Córdoba para a fábrica recém-inaugurada no Paraná.
‘‘Considerando que a margem de lucro no comércio internacional é de apenas 5% em alguns setores, 30% de custos a menos é algo importante’’, diz o economista Roberto Lavagna, especialista em Mercosul. ‘‘Esse processo de transferência deve continuar’’, diz o economista Abel Viglione, da Fundação de Investigações Econômicas Latino-Americanas. Nem todos os setores estão sendo afetados igualmente. Em alguns, a produtividade compensa o custo mais baixo. É o caso da indústria de leite argentina, altamente competitiva.
O setor da indústria argentina que mais tem sofrido com a desvalorização brasileira é o de autopeças. Desde o início do ano, cerca de 20 empresas já foram vítimas. Algumas fecharam suas portas em definitivo, mas, boa parte, transferiu sua produção para o Brasil. É o caso da Freios Varga, que demitiu os 600 funcionários na Argentina e voltou para casa. A alemã Siemens iria montar uma unidade de cabos elétricos em território portenho e recuou, optando abastecer esse mercado a partir da fábrica brasileira.
‘‘Desde a desvalorização, está 30% mais barato comprar autopeças fabricadas no Brasil’’, diz Enrique Federico, diretor de relações institucionais da Mercedes-Benz Argentina. Esse quadro tem levado o secretário de Indústria e Comércio argentino, Alieto Guadagni, a sair atirando contra o Brasil. Ele não esconde que essa é a principal razão para o endurecimento argentino na negociação do regime automotivo do Mercosul.
Há uma semana, o secretário informou que a retração da indústria do país até outubro está em 9% em relação ao ano passado. Se descontado o setor automobilístico, entretanto, a queda é de apenas 2,4%, disse Guadagni. As empresas são cautelosas ao falar do óbvio, adotando uma postura diplomática com o país que as abrigou por tanto tempo. ‘‘A desvalorização teve uma influência na decisão, mas não foi preponderante. Nosso negócio na Argentina era deficitário há muitos anos e havia capacidade ociosa em todas nossas fábricas na América Latina’’, diz Miguel González Abella, gerente de relações institucionais da Unilever. Também no setor de alimentos, a Nabisco transferiu suas linhas de pudins e gelatinas ao Brasil, enquanto no setor têxtil, a brasileira Linhas Corrente recolheu todas suas atividades na Argentina. Os industriais argentinos, que sempre defenderam o câmbio fixo no país, já dão sinais de reavaliar sua posição.Goodyear, Cica e Renault confirmam transferência em busca de custos até 30% menores
Antonio Scorza/France PresseNOVAS VAGASChegada de novas companhias ao Brasil, em busca de economia no processo produtivo, deve ajudar a reverter o nível de desemprego no País

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