São Paulo O ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco disse ontem à Agência Estado que o IPCA de 2,25% reflete um teste que os formadores de preços estão fazendo sobre o poder de reação do novo governo federal. No entender de Franco, a remarcação de preços é preventiva para recomposição de margens. ''Coisa típica de ambiente inflacionário pré-pacote de antigamente, uma vez que não está descartada a possibilidade de mudanças drásticas'', diz.
Segundo o economista, isso não ocorria no governo passado, pois já se tinha um histórico de atuação e ''os agentes econômicos sabiam que governo passado reagia de forma violenta no combate à inflação''. Franco chega a suspeitar da possibilidade de o governo ''permitir a brisa inflacionária como forma de acertar as contas públicas''.
Ele diz que o aumento da meta de superávit primário de 3,75% em 2002 para 4,25% este ano teria assim seu objetivo facilitado, argumentando ainda que o anunciado corte nas despesas não tem sentido. ''O não-atendimento de emendas orçamentárias é a mesma coisa que cortar vento'', argumentou.
Franco observa ainda que houve ''uma mudança química de determinação da inflação''. O mecanismo de transmissão da desvalorização cambial tinha menor ressonância e era menos duradouro no passado. A inflação sobe com a desvalorização cambial, mas não recua na valorização do real, observa. O economista entende que o regime de metas inflacionárias é insuficiente para combate à elevação nos preços nessas circunstâncias.
''A inflação é meio como febre e não se pode utilizar o mesmo antibiótico (alta dos juros) para qualquer tipo de infecção'', argumenta. A origem do processo inflacionário é um choque de oferta (taxa de câmbio) e não uma questão de a economia estar aquecida (em termos de aumento na demanda), diz.
Segundo ele, a alta da taxa de juros surte mais efeito em choques de demanda ou de expectativa. O Brasil estaria assim numa armadilha em que o câmbio não cai, apesar das contas externas estarem confortáveis. Isso ocorre porque a credibilidade do novo governo ainda está em formação, observa Franco.

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