Empresas Simples de Crédito começam a surgir em Londrina
As ESCs são criadas por pessoas físicas que emprestam recursos próprios a pequenos negócios locais; no Paraná, já são 27 empresas do tipo, sendo que duas estão no município
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
As ESCs são criadas por pessoas físicas que emprestam recursos próprios a pequenos negócios locais; no Paraná, já são 27 empresas do tipo, sendo que duas estão no município
Mie Francine Chiba - Grupo Folha 
Após a sanção da lei que cria as ESC (Empresas Simples de Crédito), no dia 24 de abril, as primeiras empresas do gênero já começaram a surgir em Londrina e no Paraná. O Estado é o segundo com maior número de Empresas Simples de Crédito (27), e perde apenas para São Paulo nesse quesito. O Estado paulista já tem 116 dessas empresas em seu território.

No Paraná, Curitiba é a cidade com maior número – são 12 na capital. Londrina, Maringá e Pato Branco vêm em seguida, com duas cada. No total, 11 municípios já contam com pelo menos uma ESC. Os números são do Sebrae/PR.
As Empresas Simples de Crédito foram criadas com o objetivo de permitir que pessoas físicas abram uma empresa para emprestar recursos próprios para pequenos negócios em suas cidades, como cabeleireiros, mercadinhos e padarias. Não há exigência de capital mínimo para a abertura da empresa, mas a receita bruta anual permitida será de no máximo R$ 4,8 milhões, vedada a cobrança de encargos e tarifas.
Apesar do nome, as empresas simples de crédito terão regime tributário de empresa convencional, pelo lucro real ou presumido, não podendo, portanto, enquadrar-se no Simples, que é aplicado exclusivamente às micro e pequenas empresas.
A estimativa do governo, na época da aprovação da lei, é que as ESC pudessem injetar R$ 20 bilhões por ano em novos recursos para os pequenos negócios no Brasil, um aumento de 10% no mercado de crédito para as micro e pequenas, que em 2018 foi de R$ 208 bilhões. Isso aconteceria quando o número de Empresas Simples de Crédito chegasse a mil. Em menos de cinco meses, o número de ESCs já chega a 340 no País, ainda segundo o Sebrae/PR.
Segundo Flávio Locatelli Junior, coordenador estadual de Acesso a Serviços Financeiros do Sebrae/PR, apenas dois estados do País ainda não têm pelo menos uma ESC constituída. O capital dessas empresas, somado, é de R$ 162,9 milhões.
Para o coordeador do Sebrae, a facilidade de operação tem levado empreendedores a abrirem uma ESC. “Para iniciar uma instituição financeira, tem toda uma complexidade. As ESC não precisam de regulamentação do Banco Central. Existe o controle, mas não tão rígido. Uma ESC é muito mais fácil de operar.”
Na visão de Moacir Vieira dos Santos, diretor do Grupo Value, de Londrina, as ESC vêm para formalizar operações de já aconteciam de maneira informal. “Tem muita gente que já faz isso (empréstimos), mas na informalidade. Todo mundo perde. A empresa fica à margem da lei, e se tiver inadimplência, não tem como cobrar. Por si, é um negócio de alto risco. As ESC dão condições aos que já operam de forma informal de se formalizarem e pagarem impostos.”
Ao contrário das instituições financeiras, que fazem uma análise mais “fria” do tomador de crédito, as Empresas Simples de Crédito ganham clientes pela política de proximidade, diz o coordenador do Sebrae/PR. “O foco é na política de proximidade. É o que vai fazer a diferença, o olhar mais próximo, de quem conhece a realidade local.”
Conforme Locatelli Junior, nos últimos três anos, o crédito para pequenas empresas caiu quase 53% no País. Um dos motivos é a “assimetria de informação”, já que as pequenas empresas têm menos dados para serem analisados que as grandes, e as instituições financeiras preferem negar o crédito que assumir o risco. “Precisa de alternativas. Já existem as cooperativas, as agências de fomento, o microcrédito, essa é mais uma opção que se junta.” Para ele, em um primeiro momento, as taxas de juros oferecidas pelas ESC não serão tão atraentes, mas deverão ficar melhores à medida que mais empresas forem surgindo e aumentar a concorrência entre elas.
ACESSO RÁPIDO

O empresário Gustavo Freitas é dono de uma petiscaria em Londrina. Há um tempo, resolveu abrir uma hamburgueria logo ao lado, depois de perceber que o hambúrguer tinha bastante saída no estabelecimento. Depois de testar um cardápio com amigos, construiu a hamburgueria tomando parte do estacionamento da petiscaria. O capital utilizado no novo negócio consumiu parte do capital de giro do empresário, que precisou ir em busca de crédito para recuperar a saúde financeira.
Freitas foi a dois bancos atrás do crédito, mas os prazos para o empréstimo foram um empecilho. Já com funcionários em treinamento para o novo negócio, ele tinha pressa em obter capital de giro. Em uma ESC recém-aberta em Londrina, ele conseguiu o recurso em cerca de 20 dias.
O empreendedor queixa-se que nos bancos o retorno viria em três a quatro meses, e que as restrições aumentam nessas instituições uma vez que a empresa é nova e ainda não tem faturamento. Na ESC, Freitas conseguiu o crédito colocando um imóvel próprio como garantia. O valor obtido corresponde a metade do valor do bem e as taxas, segundo ele, eram semelhantes às oferecidas no mercado. O que contou nesse tipo de transação, na opinião do empreendedor, é a relação de confiança construída com a empresa muito devido à relação de proximidade entre ambas.
Thiago Eik, sócio da Fomento 43, uma das ESC criadas em Londrina, afirma que os bancos não têm o costume de fazer empréstimos a empresas novas ou com alguma restrição. Assim, muitos empresários acabam na mão de agiotas ou fazendo sociedades malsucedidas. Quando a empresa ainda não tem faturamento, a empresa de Eik pode usar imóveis ou carros como garantia, por exemplo. “O objetivo é atender quem não se encaixa no padrão.”
O foco da ESC está em empréstimos de valores entre R$ 10 mil e R$ 200 mil e os prazos para pagamento variam de seis meses a um ano. As taxas são definidas caso a caso, de acordo como volume do empréstimo, o prazo, e a segurança da operação. “Mas isso é para toda operação de crédito. Quanto mais segurança, menor a taxa”, explica Eik. Por outro lado, o empresário destaca a facilidade e a agilidade das operações com as ESC. Até a metade do ano que vem, o empresário planeja disponibilizar R$ 1,5 milhão de capital na empresa.
A empresa é formada por três sócios, que cedem o próprio capital para os empréstimos. Eles também têm um negócio de factoring – antecipação de recebíveis -, mas Eik hoje se dedica apenas à ESC. “O mercado de factoring já tem bastante gente concorrendo. A ESC só vinha para disputar com os bancos, e com os bancos é mais fácil competir.” Eik, no entanto, diz que, pelo fato das Empresas Simples de Crédito serem uma novidade, não é possível saber com certeza se o negócio vai ser lucrativo. “Ninguém tem uma resposta clara se vai ser mais lucrativo ou não.”
A reportagem não conseguiu contato com a outra ESC criada em Londrina.


