RIO - As margens de lucro das empresas caíram significativamente nos primeiros nove meses de 1996, em relação a 1993, último ano de inflação galopante antes do Plano Real. Essa redução atingiu a esmagadora maioria dos setores da economia, cujas companhias têm ações negociadas em bolsa. Os segmentos mais atingidos foram o de alimentos (caiu de 25,6% em 1993 para 19,5% em 1996), bebidas e fumo (saiu de 55,3% para 40,4%), eletroeletrônicos (31,1% e 27,4%) e material de construção (35,4% e 27,8%).
A honrosa exceção ficou por conta do setor de telecomunicações. A margem de lucro das empresas de telefonia subiu de 42,6%, nos primeiros nove meses de 1993, para 52,2% no mesmo período de 1996. Os cálculos, feitos pela diretora do banco Opportunity, Maria Amália Coutrim, tomaram como base a margem bruta das empresas, resultado do lucro bruto sobre faturamento líquido registrados nos balanços dos dois anos analisados. A explicação técnica para esse critério vem da própria Amália: ‘‘Essa margem é a que apresenta menor distorção na comparação entre os dois anos.’’
O motivo dessa queda generalizada vai além da estabilidade econômica obtida com o Real. Mais do qualquer outro fator, os resultados foram consequência direta da abertura econômica e da enxurrada de produtos importados que invadiram o País nos últimos anos. As empresas brasileiras ficaram, subtamente, expostas à concorrência internacional.
Com isso, viram-se forçadas a reduzir preços para sobreviver. A concorrência saiu da retórica e entrou na vida real. ‘‘Em 1993 consolidou-se a abertura à importação e as empresas que estavam acostumadas a manter preços parecidos, porque o controle de preços favorecia isso, tiveram que mudar’’, observa Maria Amália.
Ou seja, o lendário Conselho Interministerial de Preços (CIP) cuidava para que todas as empresas do setor mantivessem preços semelhantes, contribuindo para a criação de cartéis, que impediam a livre competição entre as companhias. Um exemplo? ‘‘Quem não se lembra que a Brahma e Antárctica reajustavam as bebidas com o mesmo valor?’’, observa Amália. ‘‘O controle de preços era muito favorável às empresas.’’
O fim do CIP e a estabilidade econômica levaram a Kaiser a entrar no mercado com uma agressividade que assustou os concorrentes e forçou as empresas a travarem uma competição real. Acabou-se a briga entre amigos. A margem bruta da Brahma saiu de 50,2% nos nove primeiros meses de 1993 para 43,7% no mesmo período de 1996. A da Antárctica saiu de 57,1% para 43%. A Anheuser-busch, dona da Antarctica, obteve nos Estados Unidos uma margem de 34,3% nos nove primeiros meses de 1996.
No setor eletroeletrônico a concorrência também foi decisiva. O aumento do consumo não foi suficiente para garantir a manutenção das margens. As empresas foram forçadas a se modernizar, reduzir custos e promover reestruturações. Muitas, com administração familiar, trocaram de mãos. A Continental foi comprada pela Bosch alemã; a Refripar pela suíça Electrolux; a Dako, fabricante de fogões, hoje pertence à americana General Eletric (GE).
A Brasmotor já pertencia a Whirpool, que teve uma margem de 24,4% nos Estados Unidos entre janeiro e setembro de 1995. No Brasil, a Brasmotor ainda não apresentou balanço relativo ao terceiro trimestre do ano, mas, nos nove primeiros meses de 1993, apresentou uma margem bruta de 36,5%. A Continental e Refripar, no entanto, podem ser comparadas à Brasmotor. A primeira registrou uma margem de 29,9% em 1993 e 24,4% em 1996. A margem da Refripar caiu de 37,9% para 21,9%.

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