Empresas de alto crescimento geram 70% dos empregos
As scale-ups, empresas que crescem de forma acelerada, são apenas 0,5% do total, mas geram mais de 70% dos novos empregos no Brasil
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de agosto de 2020
As scale-ups, empresas que crescem de forma acelerada, são apenas 0,5% do total, mas geram mais de 70% dos novos empregos no Brasil
Mie Francine Chiba - Grupo Folha 
Era ano de 2013 e a Hachimitsu inaugurava a sua segunda loja, localizada no jardim Bela Suíça, em Londrina. Com arquitetura arrojada - uma grande abóbada dourada na entrada -, a loja se tornou um ponto de referência no bairro, que é basicamente residencial. Todos eram contra a inauguração naquele local, conta Nilo Kato, fundador da empresa junto com a esposa, Suely. “Era um ponto comercial que pouquíssimos escolheriam. É quase residencial, não tinha fluxo de pessoas.” Contrariando as recomendações de consultores, os empreendedores resolveram inaugurar a loja ali mesmo.
A “desobediência” dos fundadores da Hachimitsu rendeu frutos. A loja na Bela Suíça levou fluxo de pessoas ao bairro residencial. “Antes de montar a loja, não tinha um carro estacionado na rua”, lembra Kato. Hoje, o cenário é o oposto.

Na contramão de uma grave crise econômica, nos anos de 2014 e 2015, o atelier de doces comandado por dekasseguis com toques de confeitaria francesa cresceu mais que 30% ao ano. Até 2018, vinha em um ritmo de crescimento de 20% a 30%, índice que baixou um pouco depois que a empresa passou por mudanças e resolveu investir em uma fábrica. Esse ano, veio a pandemia e Kato diz esperar que o crescimento da empresa fique estável. Mas de 2021 em diante, o empreendedor planeja voltar a crescer até atingir novamente altos patamares através da expansão do modelo de franquia.
Mesmo com a crise atual, a Hachimitsu foi considerada uma scale-up, empresa de alto crescimento - pelo menos 20% anuais por três anos consecutivos em número de funcionários ou receita - com modelo de negócio escalável e de alto impacto. A Hachimitsu foi selecionada para participar este ano de um programa nacional de aceleração do varejo da brMalls em parceria com a Endeavor, organização global sem fins lucrativos com a missão de desenvolver empreendedores que aceleram o crescimento no País.
De Londrina, a Endeavor também selecionou para seu programa nacional a Arbo, de quem já falamos em matéria publicada no dia 28 de julho. A empresa oferece uma plataforma para automatizar e agilizar o atendimento de imobiliárias tradicionais e obteve faturamento mensal de cerca de R$ 200 mil em 2019, com meta de chegar aos R$ 400 mil esse ano.
A Endeavor estima que haja, no Brasil, cerca de 10 mil scale-ups. Elas correspondem a apenas 0,5% de todas as empresas do País, mas são responsáveis por 70% dos novos empregos, afirma Diego Tutumi, líder da Endeavor no Paraná. No Paraná, a organização já apoiou mais de 130 delas. Só as 20 empresas selecionadas no programa Scale-Up Paraná da Endeavor esse ano faturaram mais de R$ 330 milhões em 2019 e projetam faturamento de mais de R$ 610 milhões esse ano, um crescimento de mais de 120%.
Embora nem todas as scale-ups sejam ligadas à tecnologia, Tutumi afirma que muitas das empresas de alto crescimento fazem uso dela e são adeptas da inovação organizacional. “Elas inovam nos mercados que atuam, conseguem com inovação resolver problemas de mercado.”
Uma pesquisa realizada pela organização com o Datafolha mostrou que os empreendedores que crescem mais e por mais tempo tendem a encarar a crise de forma diferente. A maioria, com baixos índices de crescimento, crê que a crise influencia em 60% dos resultados, e que a competência da empresa é responsável por outros 40%. Já aqueles que crescem mais de 40% ao ano acreditam no oposto - que seus resultados são obtidos pelo esforço da companhia. A maioria (46%) também espera que, no futuro, suas empresas se tornem apenas uma fonte de renda, enquanto os empreendedores que crescem mais sejam as maiores e melhores dos seus setores.
Para Kato, a pandemia trouxe impacto negativo para todo mundo, mas tirou as pessoas da zona de conforto. “O pior momento da empresa é quando ela está ganhando muito dinheiro, porque assim ela não cria, fica na zona de conforto. Dizem que em time que está ganhando não se mexe, mas digo que quando está ganhando tem que mexer mais ainda para ganhar de goleada”, decreta Kato. Manter o crescimento na crise e ao longo dos anos exige mudanças constantes e experimentação. “Se não vende doce, vamos vender salgado. Se não vende salgado, vamos vender azedo e se não vender azedo vamos vender amargo. Vai fazer o que não vende? Faz o que vai vender. Quando perguntam o que, eu digo: se eu soubesse, já falaria. Vamos descobrir.”
'Dores do crescimento'
Empresa de software e soluções para qualidade e metrologia de Cornélio Procópio, a ForLogic tomou uma dura decisão em 2019, quando resolveu parar de prestar serviços sob demanda, tipo de atividade muito comum entre empresas de software por gerar grande rentabilidade, mas que "consome muita energia", conforme disse o co-fundador da empresa, Jeison Arenhart De Bastiani. A decisão arriscada se mostro certeira quando a empresa começou a crescer mais de 30% ao ano apenas com as vendas recorrentes (mensalidades). A consequência disso é o custo.
Segundo Diego Tutumi, da Endeavor, uma das maiores dores das scale-ups está associada ao capital para suportar o rápido crescimento, com contratação de um grande volume de mão de obra especializada em um espaço curto de tempo, por exemplo. De Bastiani, da ForLogic, no entanto, diz que já negou oportunidades de investimento para se tornar uma empresa mais representativa que grande. "A gente já negou algumas possibilidades de investimento porque eles querem que a gente saia crescendo que nem doido. O fato é que nenhuma empresa precisa ter 100 mil funcionários. Você pode ser uma empresa de 100 funcionários, extremamente rentável, que gera riqueza, paga muito bem, gera muito resultado para todo mundo da cadeia, contribui com a sociedade e ficar feliz com isso."
Selecionada pela Endeavor para o seu programa de scale-ups voltado à indústria em 2017, a ForLogic preocupa-se com o crescimento ordenado. "Esse é o grande desafio de empresas que crescem: se manterem organizadas, eficazes, entregar qualidade e não perder o olhar no cliente", diz De Bastiani. "Se você crescer de maneira desordenada, o que vai ter é um monte de dinheiro entrando e um monte de dinheiro saindo com muito desperdício, e de repente você vai ter um um 'gap' de atendimento de expectativa do cliente. Toda vez que a gente cresceu muito rápido, a gente viu isso: perda da qualidade", ele continua.
Sempre se desafiar e não acreditar em benchmark - ferramenta de comparação do produto ou serviço em relação aos concorrentes -, na visão de De Bastiani, contribuem para continuar crescendo de maneira acelerada. E durante crises, é importante voltar-se às partes interessadas no negócio, acrescenta o co-fundador da ForLogic. Antes mesmo de estourar a pandemia, a empresa criou um comitê de gestão anticrise que, entre outras medidas, criou um plano de financiamento para os clientes e aumentou de 4% para 100% a parcela do time trabalhando em home office. "Olhar para o cliente e não desviar o olhar daquele que gera renda para o seu negócio é muito importante."


