Empresas aproveitam crise para investir
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de novembro de 1997
Mônica Magnativa Agência Estado 
A crise financeira internacional, que afetou a economia brasileira, trouxe, pelo menos um benefício: algumas empresas estão aproveitando essa fase de turbulência para investir mais e ganhar mercado. A Xerox do Brasil, por exemplo, aumentará seu quadro de funcionários, mais especificamente sua equipe de vendas em 1998, em 10%. Ao contrário do que parece, a decisão, segundo o presidente Carlos Sales, foi tomada, exatamente, em função dos problemas na economia brasileira esperados para o próximo ano. Sempre que há uma crise aumentamos nossa força de vendas, porque são nesses momentos que elevamos nossa participação no mercado, disse Sales. Nós crescemos em todas as crises.
Por essa razão, o programa de investimentos da Xerox para 1998 não sofrerá alterações. O planejamento para o próximo ano será aprovado na primeira quinzena de dezembro, mas Sales adiantou que está mantida a previsão de investimentos de R$ 132 milhões para 1998. Desse total, R$ 100 milhões serão aplicados em modernização tecnológica e R$ 32 milhões em melhorias na área de produção e infra-estrutura. Não podemos ficar alterando programas de investimentos ao sabor de coisas ocasionais, disse. A crise é passageira, o Brasil passou por muitas e saiu de todas elas, sairá bem desta última, também.
Os planos de Sales para 1998 são ambiciosos. O faturamento da Xerox, segundo ele, crescerá entre 10% e 12% no próximo ano, um pouco abaixo dos 15% previstos para 1997. Mesmo assim, terá um aumento bem superior a estimado para o Produto Interno Bruto (PIB), de 2% para 98. Em 1996, a empresa teve um faturamento de US$ 1,6 bilhão e um lucro de US$ 92 milhões. A Xerox do Brasil é a terceria maior do mundo, atrás da Xerox dos Estados Unidos e Japão. Acabei de receber há uma semana o novo presidente de Xerox e, em momento algum, se cogitou em parar investimento, informou.
Isso não significa que a Xerox passará imune pela crise. Ao contrário, a empresa importa, aproximadamente, US$ 200 milhões e o aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre as compras externas vai afetar a receita da empresa. Sales, no entanto, garante que não repassará esses custos para os preços. Estamos em uma época totalmente diferente da década passada, quando se repassava o aumento para o cliente e ele pagava, disse. Na década 90, as companhias têm que reduzir margens para incorporar o aumento. Segundo ele, a saída é melhorar a qualidade dos processos industriais para reduzir despesas. Vamos começar a trabalhar nisso, afirmou. Em 1997, a Xerox obteve uma economia de despesas de 10%, sem realizar qualquer demissão.
O Brasil, segundo o executivo, está bem equipado para resistir às pressões. Quem adiar investimentos, neste momento, em função da crise internacional, estará cometendo um equívoco. A Chrysler, por exemplo, deixou o Brasil décadas atrás e agora paga um preço alto para voltar a se instalar no País. Eles estão pagando 100 vezes mais do que se tivessem ficado aqui, avalia Carlos Sales. O potencial do mercado brasileiro é tão grande, na sua opinião, que vale a pena correr certos riscos. Essas crises do Brasil duram entre dois e três meses, disse. Entre 1986 e 1992 a matriz tinha dificuldade para entender o que se passava aqui e naquela época passávamos a metade do tempo nos Estados Unidos explicando os acontecimentos, contou. Agora é diferente.
Coca-cola A Coca-Cola manterá todos os planos de investimentos, apesar das perspectivas de desaceleração da economia, garantiu o diretor de Relações Externas, Marco Simões. Esperamos uma acomodação do mercado e a retomada do crescimento no segundo semestre de 98, disse. Ele acredita que a empresa que tiver capacidade de investimento nesse momento de crise terá vantagens quando da recuperação da economia.
A empresa deve manter os mesmos níveis de investimentos programados para este ano, que são de R$ 720 milhões em infra-estrutura e marketing. O refrigerante Coca-Cola sozinho movimentará R$ 200 milhões. Os números fechados serão anunciados no fim deste mês, quando todos os estudos de planejamento estarão concluídos. A Coca-Cola mantém no Brasil investimentos de longo prazo e tem interesse em ampliar a participação no mercado, por isso, manteremos os investimentos, disse.
Simões garantiu ainda que a Coca-Cola evitará repassar o aumento dos custos operacionais para o preço final dos refrigerantes. A empresa sofrerá impacto na estrutura de custos com a alta dos combustíveis porque precisa manter uma forte rede de distribuição de refrigerantes em todo o País. Simões explicou que o mercado hoje é disputado centavo a centavo e que, por isso, não é de interesse da empresa repassar custos para o preço final do produto. Ainda estamos fazendo estudos para identificar o impacto real nos custos, informou.
O mercado de refrigerantes já frustrou este ano as expectativas das empresas do setor. Todos estimavam crescimento de 7% a 9%, mas não passará de 4%, segundo Simões. Mesmo com a desaceleração esperamos, para o próximo ano, crescimento sobre as vendas da companhia este ano, afirmou o diretor da Coca-Cola. (Colaborou Suzana Santos)


