O empresariado promete não ‘‘engolir seco’’ a proposta das centrais sindicais que transfere para o setor a responsabilidade pelo pagamento do expurgo da correção das contas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) relativo aos planos Verão e Collor. ‘‘Temos que nos mobilizar no Estado e no País. Estamos contatando a direção da Federação das Associações Comerciais e Industriais do Paraná para agirmos contra essa proposta’’, disse ontem o presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), George Hiraiwa.
Anteontem, representantes de centrais sindicais e o ministro do Trabalho concordaram na criação de uma contribuição adicional de um ponto percentual sobre a folha de salários (que passaria dos atuais 8% para 9%) e mais 10 pontos percentuais de contribuição social incidente sobre o valor da multa rescisória (que iria de 40% para 50%). Esses duas fontes de recursos bancariam a devolução para os trabalhadores do dinheiro que não foi creditado às contas do FGTS no início da década porque o governo entendeu que o repasse não era devido. Agora, a Justiça está considerando legítimo o pagamento para os trabalhadores que moveram ações e, por conta disso, o governo federal decidiu estender, no ano passado, a devolução a todos os que tinham contas de Fundo de Garantia na ocasião. O que se discute, nesse momento, é de onde retirar recursos para os pagamentos.
Hiraiwa destacou que o setor não pode assistir passivamente a uma discussão que o envolve diretamente e ressalta que as empresas brasileiras, de forma geral, estão no limite. ‘‘Até agora acompanhamos a negociação com ansiedade. No nosso entender, um erro administrativo do passado não justifica que a responsabilidade recaia sobre o empresariado.’’
O empresário Valter Orsi, proprietário da Indusfrio (refrigeração) salienta que, mais um vez, ‘‘foi fácil achar uma solução, colocando a responsabilidade sobre o empresariado’’. ‘‘Essa, infelizmente, é uma prática comum no Brasil. Toda dificuldade é transferida às empresas brasileiras.’’ Segundo Orsi, qualquer custo adicional repercute na estabilidade das empresas, podendo gerar uma consequência mais séria, que é a desestabilização do emprego. Sua empresa, a Indusfrio, ocupa 28 funcionários.
O diretor da Relojoaria Quintino, Marcelo Cassa, também faz críticas à proposta de repassar para o empresariado a conta do FGTS. As cinco lojas do grupo empregam 50 funcionários. ‘‘Não podemos arcar com mais esse ônus, que pode ser repassado também ao consumidor. As empresas que não repassam seus custos aos preços acabam fechando’’, comentou. Ele salientou que o aumento de 1 ponto percentual sobre a folha de salários representaria 12,5% sobre o total recolhido pelas empresas.
Em nível nacional, a repercussão da medida foi a mesma ontem. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Carlos Eduardo Moreira Ferreira, rechaçou a proposta. Na avaliação de Moreira Ferreira. a adoção dessas duas medidas contribuiria para aumentar os níveis de informalidade no mercado de trabalho. Além disso, afirmou o presidente da entidade, também aumentaria o chamado Custo Brasil. ‘‘A apresentação dessa proposta significa um jogo de empurra de quem não quer resolver as coisas’’, disse. ‘‘Nós somos contra a tudo que possa onerar o Custo Brasil e essa proposta não pode ser aceita pela área industrial’’, completou o empresário.
Os sindicatos patronais deveriam se reunir ontem com o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, mas o encontro foi adiado para quarta-feira da próxima semana, um dia após uma nova reunião agendada com as centrais sindicais. Moreira Ferreira disse que a equipe técnica da CNI está estudando nesta semana novas propostas a serem apresentadas no encontro com o ministro. Ele lembrou que uma das propostas apresentadas pela entidade, que poderia render R$ 30 bilhões ao Fundo de Garantia em cinco anos, seria a aplicação de 20% do valor depositado no fundo em títulos do governo que são remunerados pela taxa Selic. (Com Agência Estado)

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