Curitiba - A ameaça do secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Mário Mugnaini, ao declarar que o Brasil poderá adotar barreiras contra importações de produtos da agroindústria argentina, é reflexo de pressão dos empresários brasileiros. A afirmação é do empresário paranaense Zulfiro Bózio, presidente do Centro de Comércio Exterior do Paraná (Cexpar) e membro da Coalizão Empresarial Brasileira (CEB), entidade que negocia com o Mercosul.
De acordo com Bózio, os empresários brasileiros vinculado à CEB se reuniram na semana passada, em São Paulo e recomendaram que o governo brasileiro deve dar uma freada nas relações com o Mercosul, na reunião que acontece esta semana na cidade mineira de Ouro Preto. Os empresários estão fartos das constantes restrições impostas pelos argentinos. ''Primeiro foi com o açúcar, depois com o setor calçadista e agora com os produtos da linha branca'', explicou.
Bózio lembrou que o Brasil foi deficitário no comércio com a Argentina durante seis anos. Este ano, a situação se reverteu e a Argentina está com um déficit de US$ 1,7 bilhão. O Brasil já exportou US$ 7,2 bilhões no período janeiro a outubro para a Argentina, que por sua vez, exportou produtos no valor de US$ 5,5 bilhões. ''O sistema industrial da Argentina está sucateado e eles querem tirar vantagens em cima do empresário brasileiro. Não concordamos mais com isso'', afirmou.
Para o presidente do Cexpar, do jeito que está, o Mercosul deixou de ser área de livre comércio. Segundo ele, produtos como açúcar, calçados e equipamentos da linha branca já são tributados naquele País, o que impede o aumento das exportações brasileiras. A Argentina impõe alíquotas altas e não respeitam a Tarifa Especial de Comércio (TEC).
O Brasil ameaça com restrições à importações de trigo, arroz, vinho de mesa, alho e cebola da Argentina. A iniciativa foi bem recebida pelos produtores paranaenses que vêem com reservas o aumento das importações de trigo daquele país. Segundo Carlos Augusto Albuquerque, assessor econômico da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), este ano os agricultores da região Sul produziram 6 milhões de toneladas de trigo e estão com dificuldades de vender o produto com a entrada do trigo argentino, mais barato.
O analista econômico da Agência Rural, Fernando Muraro, não acredita em retaliações sobre os produtos agrícolas brasileiros. Segundo ele, o Brasil importa principalmente o trigo e arroz, produtos da cesta básica brasileira sensíveis na oscilação da inflação. ''Acho difícil o governo mexer na importação de produtos que podem provocar alta da inflação'', afirmou. Muraro prevê importação de trigo ainda maior no ano que vem, quando os produtores brasileiros vão reduzir bastante a área plantada em função da queda de preços ocorrida este ano. ''Os argentinos sempre foram e vão continuar sendo os fornecedores mais baratos de trigo ao Brasil'', declarou.

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