As crises cambial e energética já levam empresas instaladas no Paraná a rever as projeções e gastos para o segundo semestre. Mesmo assim, a maioria dos empresários não cede ao pessimismo e prefere analisar o momento como conjuntural. A situação é preocupante, dizem alguns executivos ouvidos pela Folha, ‘‘mas passageira.’’
Na Global Telecom, empresa de telefonia celular, os executivos traçaram para este ano totalizar um milhão de assinantes em 101 cidades no Paraná e Santa Catarina. Hoje são 640 mil assinantes. O diretor vice-presidente da empresa, Amilcar Piazzetta Marques, diz que a companhia está reduzindo despesas internas para se adaptar ao momento, mas de forma a não prejudicar os serviços e os seus projetos de expansão. Marques não nega que o cenário atual preocupe, mas diz que existe o interesse dos sócios da empresa em crescer o máximo possível este ano e continuar os investimentos para melhor se posicionar no mercado. ‘‘Claro que estamos preocupados com a situação e estamos tomando providências, como diminuir despesas internas. Mas nada que impacte nos serviços aos nossos clientes.’’
Na Milenia Agrociências, multinacional do ramo de defensivos agrícolas, a variação cambial colocou em compasso de espera os planos de investimentos em novos produtos e produção maior. Levou também a diretoria a rever a previsão do resultado financeiro anual. Nem por isso, a empresa perdeu o otimismo. ‘‘Temos certeza que o nosso resultado de rentabilidade será cerca de 30% menor do que no ano anterior. Mas trabalhamos com planejamento a longo prazo e não nos assustamos com crises temporais’’, diz o presidente da empresa, Osvaldo Pitol, acrescentando que não foi alterado o plano de produção de 60 milhões de quilos de produtos agroquímicos para este ano.
Segundo ele, além da importação de matérias-primas para a linha de produção, a Milenia também toma dinheiro emprestado em bancos internacionais para financiar o produtor brasileiro ao vender a ele produtos para serem pagos apenas após a safra. ‘‘Num primeiro momento vamos absorver essa variação e aguardar a estabilização do dólar. Só então alinharemos os preços dos produtos à moeda norte-americana.’’ Pitol disse não acreditar que o dólar continue subindo. ‘‘A economia brasileira não suporta o dólar a R$ 3,00. Acredito que a moeda cairá para R$ 2,30.’’
Já a crise energética não chega a ser problema para a empresa, que possui gerador capaz de sustentar todo o parque industrial. Até há pouco tempo, o equipamento era usado apenas em emergências, mas agora está sendo ativado também em horários de pico de consumo de energia.
Walter Schalka, diretor da Dixie Toga, afirma que a crise de energia não deve gerar queda na produção da empresa, maior fabricante de embalagens plásticas da América Latina. Na avaliação de Schalka, com a conta de energia mais barata, o consumidor vai direcionar esse excedente de dinheiro para o consumo, favorecendo, principalmente, o setor alimentício – com exceção dos congelados, que demandam energia para conservação.
Mas os efeitos da crise cambial serão mais ofensivos. ‘‘Houve uma miopia do governo ao não administrar o câmbio no Brasil. O maior devedor em dólares é o governo federal. Se o governo interviesse, dando liquidez ao mercado, o mercado de câmbio se acalmaria’’, analisa. Como isso custou a acontecer, Sckalka acha inevitável o retorno da inflação ao Brasil em curto prazo. ‘‘Está havendo um aumento de custos e estamos repassando isso aos preços, que subiram de 10% a 12%.’’ Apesar da situação, Schalka afirma que o plano de investimento da empresa, traçado para o ano, será cumprido. Os novos investimentos voltados para o aumento da produção, no entanto, serão revistos com cautela. (Benê Bianchi)

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