Arquivo FolhaEmpresa deve igualar estrutura à das melhores do mundo, diz Kaplan‘As empresas têm de entender e atacar os seus custos’Agência Folha
Os programas de administração de custos das empresas devem deixar de ser sinônimo de demissões em massa, passando a significar mais produção, mais eficiência, aumento de vendas e manutenção do nível de emprego. A opinião é do professor Robert Kaplan, 60, da respeitável Harvard Business School (Estados Unidos), uma das maiores autoridades acadêmicas em gestão de custos. Dois de seus sistemas - o ABC, das iniciais em inglês de ‘‘custo baseado em atividade’’, e o ‘‘balanced scorecard’’, um método de medição dos desempenhos financeiro e não-financeiro das empresas, estão entre os mais utilizados em todo o mundo.
‘‘É preciso olhar para o lado positivo da administração de custos. As empresas, à medida que se tornam mais eficientes e mais competitivas, podem alcançar mais consumidores e mais mercados nacionais e internacionais, sem, necessariamente, reduzir o nível de emprego’’, afirma o professor. Para ele, a abertura comercial e a globalização econômica tornam, cada vez mais, imperativa a adoção de ferramentas de controle de custos.
Kaplan concedeu a entrevista que se segue durante sua presente visita ao Brasil. Na semana passada, apresentou o seminário ‘‘A revolução dos custos e do desempenho’’, promovido pela HSM Eventos Internacionais, com a presença de 700 executivos financeiros, em São Paulo. Kaplan participa de seminários na Câmara Americana de Comércio, de São Paulo.
Pergunta - Como o processo de globalização econômica afeta a administração de custos das empresas brasileiras?
Robert Kaplan - Torna o controle de custos muito mais importante. As empresas brasileiras, acostumadas a operar numa economia fechada à competição externa até o início desta década, podiam repassar suas ineficiências e seus altos custos para os preços e os consumidores tinham pouca escolha. Mas com a abertura dos mercados e a competição global, as empresas brasileiras, para sobreviver, têm de igualar as suas estruturas de custos às estruturas de custos das melhores empresas do mundo. O mundo globalizado não tolera ineficiência.
Pergunta - Como o sr. avalia as estruturas de custos das empresas brasileiras?
Kaplan - O Brasil, felizmente, parece ter deixado para trás a era de alta inflação, que tornava impossível entender o comportamento dos custos empresariais no País. A estrutura de custos era fortemente influenciada pelo rápido aumento dos preços. As estruturas de custos estavam excessivamente inchadas e as operações eram ineficientes. Com a eliminação da inflação, as empresas não podem mais transferir os custos para os preços. As empresas têm de entender e atacar custos.
Pergunta - Como os dois sistemas de gestão de custos desenvolvidos pelo senhor, em conjunto com outros especialistas da Harvard Business School, podem ajudar as empresas brasileiras?
Kaplan- Os dois sistemas são complementares. O ‘‘balanced scorecard’’ nos diz onde devemos competir, que clientes devemos conquistar, o que é preciso fazer para criar valor para os clientes. O ABC mostra como estamos ganhando dinheiro com esses clientes. Foram criados, há cerca de dez anos, para resolver problemas de indústrias norte-americanas que estavam enfrentando a concorrência de empresas com atuação mundial, principalmente japonesas. Mais tarde, as mesmas técnicas foram aplicadas com sucesso por empresas prestadoras de serviços.
Pergunta - Mas, no Brasil, a mera menção de programas de reestruturação de custos provoca temores de demissões em massa. Há uma correlação direta entre controle de custos e redução do nível de emprego?
Kaplan - Quando uma empresa torna seus processos mais eficientes, ela pode alcançar o mesmo nível de produção com menos recursos, sejam esses recursos pessoas ou máquinas. As empresas podem tanto reduzir o número de seus empregados quanto - e essa é a solução preferível, em resposta ao aumento da produtividade e da eficiência - expandir a produção e vender mais nos mercados locais, regionais e também nos internacionais.
Pergunta - Quais são os principais resultados que as empresas brasileiras podem esperar da aplicação eventual de seus métodos de controle de custos?
Kaplan - A maior visibilidade dos custos, que passam a ser alvo de medidas de aperfeiçoamento de processos. O método revela também que um significativo número de produtos ou de clientes pode estar na base de muitos prejuízos. O ABC tem a ver com custos, fornecendo um modelo preciso de determinação de custos e mostrando que fatores influenciam cada custo. Já o ‘‘balanced scorecard’’ ajuda a compreender os fatores que influenciam a receita de cada empresa.

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