Parece inevitável que diminuam ainda mais as garantias típicas de quem tem emprego. Tudo gira em torno de uma nova ordem econômica: o mercado, o preço e a qualidade do produto determinam por um certo período, o crescimento econômico e, talvez, o lucro de uma empresa. Numa economia aberta, nada é permanente. Tudo pode acontecer da noite para o dia e as oscilações são mais acentuadas ainda se o governo não mantiver suas contas em ordem. Política fiscal ou monetária podem se alterar sem prévio aviso, para guarnecer buracos no orçamento público ou déficits comerciais.
Um pacto de mais de 40 anos entre o Estado, trabalhador e empresa foi rompido. Não há mais reservas que assegurem participação em negócios, garantia de financiamentos a produção, emprego e salário. É a lógica do mundo capitalista moderno, que não admite o repasse automático de custos aos preços.
A flexibilidade passa a ser a regra do jogo. Remuneração variável com participação nos resultados substituem o salário fixo. Contratos temporários de emprego, eliminação de custos para demitir e redução de encargos sociais e de jornada de trabalho formam o novo conjunto de relações trabalhistas.
Um novo cidadão está nascendo. Mais atento a sua performance e mais envolvido com a empresa. Mais cuidadoso com sua poupança e com seu orçamento doméstico. Mais atento à gestão da sua cidade e do seu país. E acima de tudo mais responsável.
Como consequência, uma nova cultura estará se instalando no Brasil. Negócios prosperarão na medida em que o administrador do risco empresarial, o dono do capital e o responsável pelas políticas públicas souberem tirar proveito dessa nova situação mundial em que competitividade, melhores custos e domínio de tecnologia darão o tom. Enquanto o Estado assume seu novo papel de controlador austero de seus gastos e juíz final da melhor alocação da riqueza nacional, o setor privado vai desenvolvendo parcerias que, estrategicamente, vão adequando às novas variáveis ditadas pela ordem mundial.
Não quer dizer que somente os grandes permanecerão. Pequenos e médios estão firmando alianças e criando uma rede ágil e enxuta e poderão, muitas vezes, se tornar mais poderosos e agressivos que gigantes multinacionais.
Enquanto isso, o setor de serviços estará se organizando para oferecer mão-de-obra qualificada e mantendo capital humano para atender a demanda dos núcleos de produção. As firmas que prestam serviços vão se especializar cada vez mais no atendimento. É possível que os sindicatos tipo CUT e Força Sindical se transformem em aglutinadores de mão-de-obra para estimular as condições de empregabilidade num processo contínuo de reciclagem.
O que não poderá ocorrer - até porque será inócuo - é o governo assumir discurso demagógico sobre a decisão de alguma empresa em demitir pessoas. Como o pacto foi rompido, o que passa a prevalecer são as leis do mercado onde a mão-de-obra é mais um insumo. Ela será mais valorizada se o crescimento levar a uma disputa por trabalhadores, mas terá seu valor depreciado se ocorrer o contrário.
É por isso que na instalação de uma nova fábrica em determinada região, o que nós consultores calculamos é o valor que o Estado possa querer pagar para cada um dos novos empregos gerados na cadeia produtiva. Porque, no fundo, o que importa é possibilitar que a sociedade se organize ao redor de empreendimentos privados, incluindo o terceiro setor.
ANTONINHO MARMO TREVISAN, presidente da Trevisan Auditores e Consultores.

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