Brasília - O Brasil ganha mais dólares quando vende seus produtos para países em desenvolvimento do que quando exporta para os mais ricos. A participação dos emergentes no superávit da balança comercial brasileira chega a 55%, enquanto as economias ditas tradicionais respondem por 40%.
Os dados, compilados pela reportagem, indicam que os países pobres são os que mais ajudam a proteger o Brasil no cenário atual de turbulência nos mercados financeiros globais. Por outro lado, os números demonstram que o governo precisa realizar investimentos que hoje não faz, na avaliação de especialistas e autoridades.
A análise do saldo comercial brasileiro também desmonta o discurso do governo, repetido na quinta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que gigantes asiáticos como China e Índia compensariam eventual desaceleração da economia dos Estados Unidos. Há três anos, o Brasil importa mais do que exporta para a Índia, resultando em um déficit de US$ 535 milhões em 2006, um crescimento de 723,38% em relação ao ano de 2005.
No caso da China, a conta ainda é positiva para o Brasil, que acumulou um superávit de US$ 412,7 milhões no ano passado, número 72% menor que o do ano anterior. Até julho, há déficit comercial com os chineses de US$ 198,85 milhões.
Segundo Eiiti Sato, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília, os grandes superávits com países em desenvolvimento são instáveis no longo prazo. ''É difícil manter um relacionamento comercial com um país só exportando. Como vão pagar a gente se não entra dólar lá?''
No ano passado, o superávit brasileiro com países em desenvolvimento chegou a US$ 25,48 bilhões, contra US$ 18,57 bilhões com os países ricos, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior compilados pela reportagem.
O secretário-executivo da pasta, Ivan Ramalho, explicou os números como fruto de um ''processo de diversificação'' para os produtos brasileiros. ''Hoje em dia, várias dificuldades surgem no cenário internacional e o Brasil continua tendo crescimento progressivo das exportações. Os EUA, nosso maior comprador, representam 18% da pauta. Ou seja, mais de 80% do que o país vende está destinado a mais de uma centena de países.''
Opção estratégica - A ampliação dos negócios com parceiros em desenvolvimento não é segredo: foi alçada a prioridade da agenda internacional de Lula logo no início do primeiro mandato. Os números comprovam: de 2002 a 2006, o superávit do Brasil com os parceiros emergentes cresceu 311%, contra aumento de 203% nos saldos mantidos com economias avançadas.
Para Luis Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), ''é positivo'' vender muito a países mais pobres porque pulveriza a proteção a turbulências econômicas. A longo prazo, porém, essa estratégia pode apresentar problemas. ''Nossos parceiros em desenvolvimento são compradores de insumos e matérias-primas. Assim, o Brasil pode acabar se limitando a exportar produtos básicos e agrícolas, isso é preocupante no longo prazo'', ressalta.

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