Embargo russo pode ter outros interesses
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quarta-feira, 22 de setembro de 2004
João Caminotoe Jamil Chade<br> Agência Estado 
Londres - O governo brasileiro está cada vez mais convencido de que o embargo russo às exportações de produtos de origem animal do Brasil está sendo motivado também por fatores alheios ao aparecimento de um caso de aftosa no Estado do Amazonas. Brasília não descarta a possibilidade de que, além da questão fitossanitária, a negociação para o ingresso da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC) também está sendo um fator relevante no caso.
Nas reuniões que mantiveram ontem com autoridades russas, representantes do Ministério da Agricultura, liderados pelo secretário de Comercialização e Produção, Lineu Costa Lima, apresentaram todos os argumentos que consideram mais do que suficientes para mostar que o embargo não tem justificativa técnica. Os russos, no entanto, se mostraram evasivos e sem argumentos, mas insistiram que o embargo era justificado. Eles informaram que os argumentos do Brasil seria avaliado por seus especialistas.
Os brasileiros, no entanto, foram informados por fontes próximas ao governo russo de que a ''ordem do embargo veio de cima''. O ministro Roberto Rodrigues já foi informado sobre o fato e está averiguando, inclusive junto ao Itamaraty, quais as medidas a serem tomadas.
A desconfiança é de que os russos estariam dificultando um entendimento diante da insistência do Brasil na OMC em obter um acordo de cotas com Moscou que não prejudique o País. A Rússia está negociando seu ingresso na OMC, e para obter a aprovação dos membros, precisa fechar acordos de comércio com cada um deles. No caso das carnes, Moscou optou por estabelecer uma cota e dividi-la entre os fornecedores.
O que os brasileiros se queixam é de que a cota avaliou apenas a média das vendas nos anos entre 1999 e 2001, e não 2002, quando as exportações nacionais para a Rússia ''explodiram''. Enquanto isso, os Estados Unidos e a União Européia (UE) ficaram com até 90% das cotas na divisão feita por Moscou, o que não seria aceitável para o Brasil. A idéia do Kremlin é de que as cotas vigorem até 2009, quando seriam renegociadas. A cada ano, as cotas ainda aumentariam em 2,5%.
O caso mais grave para o Brasil é o das exportações de carne de frango. Os russos pretendem distribuir cotas equivalentes a 1 milhão de toneladas. Mas os americanos sozinhos receberão uma cota de 770 mil toneladas. Já os europeus ganharão o direito de exportar 200 mil toneladas por ano. Restará aos demais países compartilhar uma cota equivalente a 30 mil toneladas.
O problema é que apenas as exportações brasileiras de 2003 à Rússia atingiram 200 mil toneladas de carne de frango. No caso da carne bovina congelada, os europeus vão ficar com 331 mil da cota de 447 mil toneladas que estará disponível.


