O economista e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fabiano Dalto, está acostumado a pensar diferente da maioria dos colegas. Para ele, a discussão sobre o Brasil estar ou não em dominância fiscal é irrelevante. Dalto acredita que a inflação no País não tem relação com os gastos do governo. "Quando você pesquisa o deficit público brasileiro, você não vai encontrar relação entre ele e a inflação. Não estou dizendo que isso não possa ocorrer, mas não ocorreu na história do País", declara.
Para o economista, a inflação sempre esteve mais relacionada com o câmbio no Brasil. "Quando o dólar aumenta, os preços aumentam", afirma ele, ressaltando a dependência brasileira de produtos importados. "Vou dar um exemplo simples: aumenta o dólar, aumenta o preço do produto usado no salão de beleza e o cabeleireiro sobe seu preço." Na opinião do professor, o governo pode fazer cortes radicais de gastos que o efeito sobre a inflação será nulo ou pequeno.
Ele considera ser muito difícil apontar uma saída para a situação brasileira. Mas, se fosse governante, faria tudo diferente. "Começaria deixando de lado o ajuste fiscal, que é contraproducente." Para o economista, além de não produzir efeitos sobre a inflação, o corte de gastos diminui a renda da população e, consequentemente, reduz as receitas do governo.
A segunda medida seria "refazer a estratégia" para investimentos nos próximos anos. "Colocaria o PAC de novo para funcionar", declara. Em vez de diminuir gastos, o governo deveria aumentá-los, criando infraestrutura, novas universidades, "novos cursos de medicina no interior do país."
Economista de linha keynesiana – que defende maior participação do Estado na economia -, ele sabe que é uma voz contra a corrente. "A opinião neoliberal parece predominante em todo o mundo", diz ele, se referindo a outra corrente, que prega o Estado mínimo. Mas, diferentemente da Europa, onde "há espaço para opiniões divergentes", no Brasil não se pode defender uma visão crítica da "austeridade fiscal". "Até mesmo nos Estados Unidos, há um pré-candidato democrata, Bernie Sander, com discurso anti-austeridade", argumenta.
Dalto defende a retomada do modelo econômico do governo Lula, de forma "mais sofisticada". Em vez de foco no consumo, prega investimentos na criação de postos de trabalho, visando o atingimento do pleno emprego no País. "Essa é a melhor forma de redistribuir renda", declara. (N.B.)

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