Em tempos de aperto, a receita é fugir do consumo e do crédito
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de outubro de 1998
Carmem Murara 
A orientação dos economistas para evitar que qualquer pessoa leve a crise econômica para dentro de casa passa por uma regra básica, mas de difícil aceitação popular: evitar ao máximo o consumo, principalmente se ele for feito sustentado em prestações e dívidas no comércio. A ordem é guardar o dinheiro em uma aplicação financeira, fazendo com que o consumidor passe da condição de vítima para beneficiário dos juros altos. Receber benefícios dos juros altos pode parecer impossível à primeira vista, mas quem decidiu poupar ao invés de gastar está vendo o dinheiro crescer dentro do banco, após o aumento das taxas.
O controle orçamentário se faz necessário mais do que nunca, alerta o economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos), Cid Cordeiro, de Curitiba . A sua orientação é para que famílias, sejam elas de baixa ou alta renda, esqueçam o crediário e não entrem, em hipótese alguma no cheque especial ou avancem o limite do cartão de crédito. Apesar de o governo federal pressionar as administradoras de cartão de crédito a reduzir de 12% para 2% o juro cobrado de quem atrasa o pagamento do cartão, o índice ainda continua elevado diante da deflação vivida nos últimos quatro meses.
Para controlar o orçamento doméstico, as famílias têm de colocar em prática regras básicas descritas em livros de economia. Despesa somente com uma receita equivalente ou superior ao gasto, orienta Cordeiro. Qualquer tipo de dívida deve ser evitada, pois o juro praticado no mercado supera os aumentos salariais - cada vez mais inexistentes - e a remuneração das aplicações financeiras. Mas se o empréstimo for inevitável, é melhor se socorrer a um amigo ou parente, antes de recorrer a um banco. A situação se complica para a classe média que tem financiamento da casa própria, pois há o aumento desproporcional do saldo devedor e do resíduo com os juros elevados.
Cordeiro diz que outra dica básica para não se mergulhar de cabeça na crise é poupar o dinheiro até ter o recurso suficiente para comprar o eletrodoméstico que esteja faltando dentro de casa. O grande problema é que há todo um hábito e uma carência de consumo que levam as pessoas às lojas e ao crediário, explica o economista.
Uma pesquisa nacional do perfil do orçamento familiar, feita pelo Dieese, revela que houve um aumento de 1,4% no custo de vida, entre os meses de setembro do ano passado e agosto deste ano. Os itens alimentação e saúde são os que mais influenciaram o crescimento do percentual. A alimentação aumentou 3,3% e a saúde quase 7%.
Aliado ao aumento do custo de vida, houve ainda a redução da massa salarial do trabalhador. A renda média caiu 2,2% para os trabalhadores brasileiros, segundo o Dieese. As pessoas estão com menos dinheiro para comprar produtos ou serviços que ficaram mais caros, diz Cid Cordeiro. Analisando somente a situação das maiores rendas (acima de 15 salários mínimos), os 25% mais ricos do País tiveram uma queda de 3,2% na renda mensal.
FINANÇAS NO AZUL
Os 10 Mandamentos para sobreviver à crise
1 - Evite prestações e crediário no comércio
2 - Não avance no limite do cheque especial
3 - Não atrase o pagamento do cartão de crédito
4 - Não tome empréstimo bancário ou de agiotas
5 - Prefira fazer empréstimo com um amigo ou parente
6 - Poupe o dinheiro até ter o suficiente para fazer a compra
7 - Pesquise preços na hora da compra e pechinchar
8 - Viva somente com a renda mensal
9 - Com deflação, qualquer juro representa aumento da dívida
10 - Reserve a primeira parcela do 13º para pagar dívidas


