Em tempo de dinheiro escasso, o crediário é o senhor do mercado
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sábado, 23 de agosto de 1997
Carina Paccola Londrina 
Pior que não vender, é vender e não receber, afirma MedeirosPrazo é a palavra mais usada atualmente nas relações entre consumidores e comerciantes. Comprar hoje, sem entrada, e pagar em parcelas a perder de vista; ou então, levar a mercadoria para casa hoje e pagar a conta de uma só vez apenas em dezembro, são algumas alternativas propostas pelo comércio em Londrina. Nessas transações vale tudo: cheque pré-datado, cartão de crédito, carnê de crediário.
Para o comerciante, estender os prazos de pagamento é uma maneira de garantir a venda. Para o consumidor, que já comprometeu parte do seu salário com as prestações de compras anteriores, só resta assumir compromissos futuros se quiser comprar algum produto. O hábito da compra a prazo está cada vez mais enraizado na cultura do brasileiro. As taxas de juros, no mínimo em torno de 4% ao mês, não entram nas contas do consumidor. Desde que o valor da prestação caiba no orçamento, o negócio vale a pena.
Segundo o presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Abílio Medeiros, 80% das compras do comércio em Londrina são feitas a prazo. Isso está claro quando verificamos o aumento das consultas aos serviços de proteção ao cheque da Acil, diz. A consequência imediata é o calote. Hoje, a inadimplência é estável mas ainda é alta, afirma.
Medeiros diz que a Acil pretende fazer uma campanha para mostrar que pior que não vender, é vender e não receber. De acordo com Medeiros, as promoções e propagandas em cima das vendas a prazo acabam motivando o consumidor a comprar sem ter condições de pagar a dívida. Existe a facilidade do crediário, e o consumidor não tem a cultura de planejar suas compras. O comerciante precisa avaliar a capacidade de endividamente do cliente.
O temor de Medeiros é que esse processo aumente. É essa a tendência. Os Estados Unidos são o país mais endividado do mundo. A dívida de cada família americana está em média em US$ 3 mil. Lá, eles compram tudo a prazo. Desse jeito, não tem como fugir da inadimplência.
Paulo WolfgangTentaçãoFacilidades de pagamento saltam aos olhos do consumidor, que acaba comprometendo o salário futuro
O sócio de uma rede de lojas de calçados de Londrina, Pedro Aristeu, afirma que o comércio estica os prazos para sustentar as vendas. Nas suas quatro lojas, o consumidor pode comprar agora e pagar em 30, 60 e 90 dias, sem entrada, ou então pagar a conta total no dia 10 de dezembro. À vista, o desconto é de 15%. Quando chegar dezembro, o consumidor vai comprar com o salário do mês seguinte, de fevereiro, março. Mas não tem outro jeito, diz.
Segundo ele, 90% das vendas em suas lojas são a prazo. A inadimplência - garante - está mais baixa do que no início do Plano Real. Não é um índice baixo, mas suportável, resume. Com as promoções a prazo, em vigor desde junho, Pedro Aristeu afirma que as vendas foram mantidas. Elas não cresceram, mas, com certeza, teriam caído se não fossem as facilidades de pagamento.
Numa loja de tecidos, que anuncia vendas com pagamento em 30 e 60 dias, o gerente Célio Idalgo afirma que faz qualquer negócio para facilitar a venda. Jogo a prestação na data que o cliente prefere e o desconto, à vista, também é negociado. Segundo ele, a inadimplência é baixa na loja. O gerente de uma loja de calçados, Tito Cristóvão Proença, diz que prefere vender à vista. É melhor ter o dinheiro na mão, mas a maioria leva a prazo, afirma. Quem comprar na loja pode pagar prestação até janeiro. No Natal, talvez a gente lance outra estratégia para vender.
Em outra loja de calçados, o consumidor pode comprar em três vezes, pagando a primeira parcela apenas em novembro. Não tem jeito de vender diferente. Os concorrentes dão prazo e também temos que oferecer vantagens, diz o gerente Hilário Jacomini.
O consumidor pode até comprar remédio a prazo. Há farmácias que aceitam o pagamento em 50 dias. O gerente de uma farmácia, Jorge Koiti Tatsuta, diz que as vendas são parceladas em 30 e 60 dias ou, então, em 45 dias corridos. Segundo ele, 50% das vendas são a prazo.
Nas lojas de eletrodomésticos, a maior parte das vendas é a prazo. Com produtos mais caros, as lojas aceitam pagamento em até 25 parcelas. Mas os juros vão à estratosfera. Numa loja, uma geladeira Prosdócimo que custa R$ 389 à vista, passa para R$ 737,50 em 25 pagamentos. Ao final dos 25 meses, o consumidor gastou 89% a mais do que pagaria se comprasse à vista. Se depositasse a prestação mensal (R$ 29,50) numa poupança, com um rendimento mensal hipotético de 1,2%, ao final dos 25 meses o consumidor teria R$ 748,18. Com esse dinheiro, poderia comprar a geladeira à vista (R$ 389,00) e lhe sobraria R$ 359,18.


