Para quase cinco milhões de brasileiros, esta sexta-feira (10) é um dia muito esperado. Eles fazem parte do primeiro lote de trabalhadores que poderão sacar os recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) de contas inativas. A estimativa é que nesta primeira leva serão injetados R$ 7 bilhões na economia nacional. No total, são R$ 43,6 bilhões a serem liberados para 30,2 milhões de trabalhadores em cinco lotes (ver quadro).
A expetativa pelo dinheiro extra não é só do dono da conta inativa, mas também dos estabelecimentos comerciais que já espalham uma enxurrada de ofertas com apelos estrategicamente preparados para fisgar o bolso do trabalhador beneficiado.

Imagem ilustrativa da imagem Em suas mãos



Não há nenhum problema em consumir, inclusive, esse é um dos objetivos do governo federal com a medida: incentivar o consumo e consequentemente aquecer a economia. Mas quem recebe o dinheiro deve analisar sua situação financeira para fazer o melhor uso dele. "Sendo um recurso de reserva, a grande recomendação para cada beneficiado é fazer uma avaliação do seu cenário: se está empregado, desempregado, adimplente ou inadimplente, e se já faz uma reserva financeira visando resguardar um padrão de vida para a aposentadoria condizente com o que está acostumado", observa o doutor em educação financeira e presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin) e da DSOP Educação Financeira, Reinaldo Domingos.

Imagem ilustrativa da imagem Em suas mãos



Ele alerta para o fato de que a chamada "autoprevidência" se faz mais importante diante da iminência de mudanças nas regras da aposentadoria da Previdência Social. "Quanto mais tempo cada indivíduo deixar de fazer essa reserva, menos tempo terá para se planejar e maior será o aporte necessário", comenta. Domingos recomenda os trabalhadores a retirarem o dinheiro assim que for liberado. "O que dá para recomendar em todos os casos é que resgatar o FGTS é a palavra de ordem, porque ele não remunera nem a poupança", compara.
O segundo passo, diz o especialista, é aplicar o recurso. Ele chama a atenção para o fato de que, com os juros em tendência de queda, a caderneta de poupança voltará a ser interessante para quem planeja gastar o dinheiro em curto prazo. Ou para quem está sem renda e pretender fazer alguma empreendimento.

Imagem ilustrativa da imagem Em suas mãos



QUALIFICAÇÃO
É visando aumentar sua renda que o desenvolvedor de sistemas de Tecnologia de Informação (TI) Elias Moreira Brunelli, 29 anos, investirá todo o valor que irá receber das contas inativas de FGTS, cerca de R$ 7 mil. Morador de Cascavel (Oeste), ele pretende passar seis meses estudando inglês na Austrália. Além do dinheiro da conta inativa, ele vai precisar vender o carro e alguns outros bens. "Eu já pretendia fazer isso. E o dinheiro do FGTS veio a calhar, porque preciso ganhar fluência em inglês. Perdi várias oportunidades profissionais por não dominar a língua", admite.
Além do interesse que tem pela Austrália, pesou na decisão do paranaense o fato de que, com visto de estudante, ele também poderá trabalhar lá. "Esse fator influenciou o ranking de destinos de intercâmbio nos últimos tempos, já que, trabalhando e estudando, a pessoa consegue compensar o custo de vida do país, sendo remunerada na realidade local. A Austrália está em terceiro lugar, perdendo apenas para os Estados Unidos e Canadá. Antes, ela ficava atrás da Inglaterra e da África do Sul", explica o franqueado em Curitiba da agência australiana Information Planet, Valtemir Soares Júnior.
Brunelli não está sozinho na decisão de usar o FGTS para viajar ao exterior. Segundo a Associação Brasileira das Agências de Intercâmbio, no mês passado, houve um incremento de 25% na procura por programas educacionais fora do Brasil. "Mesmo antes da confirmação da liberação do FGTS das contas inativas, já vínhamos percebendo um aumento no movimento. E a recomendação é que as pessoas interessadas em fazer um intercâmbio procurem as agências com antecedência, pois esse planejamento garante valores mais competitivos", aponta.

Pagar dívida é boa opção
Poupar o dinheiro extra do FGTS não parece boa opção para quem está desempregado ou inadimplente. "Para o desempregado, trata-se da própria sobrevivência. Como o dinheiro acaba, ele deve equalizar os gastos básicos com caminhos para gerar renda", explica o doutor em educação financeira Reinaldo Domingos.
No caso dos inadimplentes, ele ressalta que só vale a pena pagar a dívida em casos que o valor do FGTS permita quitá-la por completo. "Em parcelamento, a pessoa já começa a pagar juros e, se não saldar, vira outra bola de neve, até porque é um dinheiro extra que não veio após um ajuste entre o custo da vida daquela pessoa e o quanto ela recebe", afirma.
Para quem faz autoprevidência e está com as contas em dia, a recomendação do especialista é que a pessoa atenda aos próprios anseios. "Todos temos propósitos na vida. As mesmas perguntas que recomendamos na hora da pessoa organizar suas finanças, valem para esse momento. De acordo com Domingos, as pessoas devem responder as seguintes questões: "Qual o sonho?"; "Quanto custa?"; "Quanto está guardando ou já possui para realizá-lo?" e "Em quanto tempo quer realizar?".
A grande maioria dos beneficiados pelas contas inativas deve receber em torno R$ 800. "Quem pegar esse valor e aplicar em CDB, em 30 anos, terá R$ 15mil", calcula Domingos.

mockup