Em Cianorte, homens estão assumindo as máquinas de costura
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 1997
Cláudia Lopes 
Warren NabucoNovo ofícioValfredo, ex-servente de pedreiro e bóia-fria: Aqui o serviço é leveUma ou duas vezes por semana, o costureiro industrial Leandro de Cuffa Sampaio, de 21 anos, reforma roupinhas de bebê e prepara as fraldas que serão usadas pelo seu primeiro filho. Sua mulher, que está grávida, não sabe costurar e é Sampaio quem assume a tarefa em casa. Ele trabalha há cinco meses como operador de máquina industrial na indústria Vilserran, em Cianorte. Novo na profissão, não sabia nem colocar a linha na máquina antes de conseguir o emprego.
A retomada das vendas no setor de confecções está fazendo com que as indústrias abram novos postos de trabalho em Cianorte. Há 500 vagas disponíveis na cidade. Mas a maioria das empresas busca mão-de-obra qualificada. A novidade é que, como falta trabalho masculino em Cianorte, os homens estão invadindo o setor de costura das fábricas. Até agora, eles eram exceção e ficavam principalmente no setor de corte. Aos poucos, empresários e trabalhadores perdem o preconceito.
Antes de entrar na fábrica, Sampaio trabalhava na limpeza de armazéns no Porto de Paranaguá. A mudança agradou o funcionário. No Porto o serviço era nojento. Os grãos de soja e milho que apodrecem deixam um cheiro horrível no ambiente. Não desejo este tipo de trabalho pra ninguém, diz. Agora, reclama apenas do cansaço de ficar o dia inteiro sentado na máquina de costura. É um pouco cansativo mas é muito melhor, diz ele, que normalmente trabalha das 7h30 às 18 horas costurando golas de camisa.
O ex-servente de pedreiro e bóia-fria, Elias Gabriel Valfredo, de 48 anos, também está satisfeito com o novo serviço. Ele trabalha como operador de máquina na Vilserran há cinco meses. A vida inteira trabalhei como bóia-fria na lavoura de café ou como servente de pedreiro. O problema é que nem sempre a gente arranja serviço, diz. Quando resolveu trabalhar como costureiro, Valfredo estava há um mês sem conseguir nada para fazer. Minha família já estava passando necessidade.
Valfredo é um dos muitos homens que procuraram o Senai de Cianorte, onde é ministrado um curso preparatório para operador de máquina industrial. Ele está achando a nova função fácil e não se enrola com linhas, tecidos e agulhas. Aqui o serviço é leve. Melhor do que fazer massa para construção, diz. O piso mensal da categoria em Cianorte é de R$ 193,80. Mas com os horas-extras e prêmios, os trabalhadores podem ganhar até R$ 300 mensais.
Ednilson Ribeiro da Silva, de 21 anos, também frequentou o curso do Senai antes de entrar na indústria, há quatro meses. Eclético, Silva já foi lavrador, modelou selas de montaria e trabalhou na prensa de uma fábrica de farinha. Ele quis mudar de profissão para incrementar seu salário, que era de R$ 151 na selaria. Hoje, consigo ganhar até R$ 240 por mês. Além disso, aprendi a fazer calças e camisas para mim. O trabalho é gostoso. Aqui é limpo, tem sombra, a gente fica sentado e ouve música o dia inteiro.


