O preço do trigo em relação à soja atingiu o maior valor dos últimos dois anos. De acordo com Vânia Guimarães, professora do Departamento de Economia Rural da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ontem uma saca de soja permitia comprar 1,06 saca de trigo, relação só ocorrida em agosto de 2000.
''No mesmo período do ano passado, a relação era de 1,67'', informou Vânia, lembrando que o trigo se valoriza frente à soja no ano em que o preço da leguminosa está muito bom. '' É mais fácil igualar quando o preço está ruim'', comentou, referindo-se às cotações de dois anos atrás.
A saca do trigo foi cotada anteontem, no Paraná, a R$ 37,25, valor que supera em 138% o preço do mesmo período do ano passado. O custo total de produção no Estado é de R$ 22,00, o que indica uma lucratividade de quase 60%. Os produtores rurais, porém, apostam que a situação pode ficar melhor.
Capitalizados pela venda da safra de verão, eles estão ''segurando a mercadoria'' a espera de preço ainda mais alto. A consequência, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Roland Guth, é que os moinhos estão encontrando uma ''certa dificuldade'' para comprar o produto. '' O agricultor está segurando para ver o que acontece'', disse.
O triticultor Adão de Pauli, de Londrina, confirma a suspeita de Guth. Ele plantou 150 hectares de trigo e garantiu que não vende a produção antes do preço da saca chegar a R$ 50,00. ''Vou segurar até haver uma definição na política econômica. Os moinhos terão que buscar trigo na Argentina'', disse.
Segundo o presidente da Abitrigo, também está difícil comprar a mercadoria no país vizinho. ''O produtor argentino não está vendendo porque tem medo de ficar com dinheiro preso pelo governo'', analisou. A tonelada de trigo argentino, que no início do ano custava US$ 122, hoje chega a US$ 204, em uma conjuntura de dólar muito valorizado frente ao real.
Enquanto a situação não se define e o mercado vive dias de pouca oferta, quem paga a conta é o consumidor. Roland Guth relatou que até a semana passada, os moinhos já haviam aumentado o preço da farinha em 70%. Essa alta acaba refletindo no preço do pão, do biscoito e do macarrão. ''No final da história, o consumidor é o mais prejudicado'', opinou.

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