Em 2 anos, consumo de carros será 30% menor que a produção
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domingo, 16 de agosto de 1998
Agência Estado 
Arquivo FolhaDescompassoEm 97, montadoras instaladas no Brasil produziram 2 milhões de unidades para um consumo de 1,9 milhãoO Brasil entrará no próximo século com capacidade de produção de veículos em torno de 30% acima do que o mercado poderá consumir. O alerta é de Manfred Tuerks, presidente do setor automotivo global da ATKearney, consultoria norte-americana com filial no Brasil. Para ele, há um excesso de investimentos do setor no Brasil e no Mercosul. E o ritmo de entrada de novos consumidores no mercado foi superestimado.
Em entrevista exclusiva à Agência Estado, o consultor norte-americano, em visita ao Brasil, explicou por que acredita que haverá sobra de carros na região a partir do ano 2000 - ou pelo menos, mais linhas de montagem do que o mercado precisaria. O mais importante é que o processo de diminuição do número de habitantes por veículo - que hoje é de 9 no Brasil - é bastante gradual.
Haverá, no máximo, nessa relação a redução de uma pessoa por ano, destacou Tuerks. Assim, pelos cálculos da ATKearney, o Brasil precisa de pelo menos sete anos para se igualar aos padrões europeus, onde a média é de 2,5 habitantes por veículo. A projeção leva em conta a manutenção da estabilidade econômica e previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
Segundo Tuerks, existem hoje entre os grandes especialistas no setor automotivo mundial duas linhas de pensamento a respeito do Mercosul: a primeira é formada pelos ligeiramente otimistas em relação ao Mercosul, motivados pela crise asiática. A outra é formada pelos muito pouco otimistas, que avaliam a vinda de muitas montadoras como um excesso de investimentos. Todos os nomes de montadoras do mundo estarão aqui; e todas tomaram a decisão de vir ou ampliar a produção ao mesmo tempo, destacou Tuerks.
O pior é que o Brasil perde competitividade para ser um exportador de veículos. Os altos níveis de custos levam a crer, segundo o especialista, que as vendas ao exterior não ajudarão a preencher o vácuo da capacidade produtiva a ser instalada dentro de dois a três anos.
A indústria automobilística já trabalha este ano para um mercado 15% menor do que o de 1997. As medidas de contenção ao consumo que o governo lançou por conta da crise asiática levarão ao encolhimento do mercado, que no ano passado somou 1,943 milhão de unidades. A produção foi de 2,069 milhões.
Embora o nível de produção de veículos no Brasil viesse num ritmo crescente ao longo desta década, os programas da indústria para os próximos anos podem ser ousados demais. A capacidade no Brasil, que é de pouco mais de 2 milhões de veículos por ano, ganhará pelo menos 800 mil a mais com a chegada das novas montadoras e a construção de novas fábricas das já existentes. Com os programas de produção na Argentina, a capacidade do Mercosul tende a ser de 3,2 milhões de unidades por ano entre 2001 e 2003.
O especialista no setor automotivo mundial lembra os estudos que indicam que para cada ponto porcentual de crescimento no PIB, o mercado de veículos aumenta 7%. Se esse ritmo se confirmasse o País levaria seis anos para atingir consumo coerente com a capacidade produtiva do parque a ser instalado em breve. Ou menos, se os programas de exportações forem bem-sucedidos.
O ritmo de exportações do Brasil avançou graças aos estímulos do regime automotivo. Mas Tuerks vê poucas perspectivas de avanços mais significativos em razão da competição mundial. Ele lembra que a capacidade mundial já está de 20% a 30% acima da demanda. A Rússia surge hoje como um bom mercado emergente para exportações. Mas eu não sei se o Brasil consegue adequar os veículos para um país que vive dois terços do ano na neve, destacou.
Uma alternativa seria explorar a capacidade brasileira para produzir carros populares. Mas, mais uma vez, a ATKearney aponta para a necessidade de reduzir custos. O carro popular foi lançado no Brasil a US$ 7 mil e hoje passa de US$ 11 mil na média. Não se trata apenas de baixar impostos, mas de alcançar níveis de custos competitivos, disse. Europa e América do Norte hoje têm boa estrutura cambial; o Brasil está no oposto, completou.
Não podemos esquecer que a Ásia ainda voltará ao mercado. Para o próximo ano é esperada uma reação importante da Coréia do Sul, China e Tailândia, lembrou o consultor. Hoje, graças à desvalorização da sua moeda, os asiáticos podem facilmente produzir carros a preços 35% a 40% mais baixos, disse. E, ao contrário de anos atrás, o desenho dos carros coreanos hoje é bonito, completou.
Para Tuerks, o mercado brasileiro experimentou um boom graças à estabilidade econômica garantida pelo Plano Real. Brasil e Mercosul explodiram. Mas hoje essa explosão chegou a níveis de uma expectativa muito alta, lembra.


