Brasília - Em tempos de escassez de energia em toda a América Latina, um novo foco de preocupação surgiu no radar do empresariado brasileiro: o Paraguai. Com eleições presidenciais marcadas para 20 de abril e com dois candidatos colocando no centro de suas campanhas a promessa de pressionar o Brasil para uma renegociação do acordo da usina hidrelétrica binacional de Itaipu, o país vizinho pode se converter em mais um ponto de insegurança energética na região, a exemplo do que já é a Bolívia.
''O processo é acompanhado com preocupação na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), porque dois candidatos fazem campanha falando contra o Brasil e colocam em discussão a validade do acordo de Itaipu'', disse à reportagem o diretor-adjunto de Relações Internacionais da entidade, Thomaz Zanotto. ''Itaipu responde por 40% da eletricidade consumida no Sul e Sudeste.''
Na avaliação do presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy, o assunto é delicado. ''As autoridades precisam ficar alertas à evolução dessa questão'', afirmou. ''Ficar alerta quer dizer estar sustentado por contratos e acordos sólidos.''
Os dois candidatos mais incendiários quando o tema é a relação Brasil-Paraguai são Blanca Ovelar, do partido que domina o governo paraguaio há 66 anos, o Colorado, e Fernando Lugo, um ex-bispo católico com discurso de extrema-esquerda cuja principal legenda de sustentação é o Partido Liberal Autêntico, de direita.
A situação preocupa a ponto de um grupo de empresários brasileiros haver consultado o Ibope sobre a possibilidade de realizar uma pesquisa de intenção de votos no país vizinho. O trabalho não foi contratado. Além da indústria do Sul e do Sudeste, empresários de Estados que fazem limite com o Paraguai temem que os discursos de campanha inflamem as ações de grupos que vêem no Brasil um império obcecado em prejudicar o Paraguai.
O Itamaraty está ciente desse risco e preparado para uma nova onda de gritaria em favor da ''soberania energética'' do governo que vier a ser eleito no Paraguai. Fontes da diplomacia explicam que os ataques frequentes de paraguaios ao Tratado de 1973, que permitiu a construção de Itaipu e definiu as regras do compartilhamento da energia elétrica, acontecem porque, nesse país, Itaipu é vista como uma ''caixa preta''. ''Nós, brasileiros, encaramos Itaipu como uma fonte de energia elétrica barata. Os paraguaios a vêem como fonte de dólares (dos royalties)'', completou.
Para Zanotto, são poucos os problemas concretos que o próximo presidente do Paraguai pode provocar ao Brasil. ''Não dá para fazer praticamente nada, porque os contratos de Itaipu são bem feitos'', disse. ''Mas vemos o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, questionando contratos com uma petrolífera americana; há problemas do Equador em relação à Petrobras - enfim, governos que simplesmente alegam injustiças para tentar renunciar contratos, sem nenhuma base legal.''
Nesse sentido, o Paraguai pode tornar-se um foco de dor de cabeça parecido com a Bolívia.

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